Quem sou eu

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Campinas, São Paulo, Brazil
Psicólogo Clínico Junguiano com formação pela Unicamp, terapia corporal Reichiana, Hipnoterapeuta com formação em Hipnose Ericksoniana com Stephen Gilligan.E outras formações com Ericksonianos: Ernest Rossi, Teresa Robles, Betty Alice Erickson. Formação em Constelação Familiar Sistémica pelo Instituto de Filosofia Prática da Alemanha. Uma rica e inovadora terapia divulgada em toda Europa. Professor de Hipnoterapia, além de ministrar cursos de Auto-conhecimento como Eneagrama da Personalidade e Workshop de Constelação Familiar Sistémica em todo o Brasil. Clínica em Campinas-SP. Rua Pilar do Sul, 173 Chácara da Barra. Campinas-SP F.(19) 32950381

Uma relação de ajuda

Como é bela, intensa e libertadora é a experiência de se aprender a ajudar o outro. É impossível descrever-se a necessidade imensa que têm as pessoas de serem realmente ouvidas, levadas a sério, compreendidas.
A psicologia de nossos dias nos tem, cada vez mais, chamado a atenção para esse aspecto. Bem no cerne de toda psicoterapia permanece esse tipo de relacionamento em que alguém pode falar tudo a seu próprio respeito, como uma criança fala tudo "a sua mãe.
Ninguém pode se desenvolver livremente nesse mundo, sem encontrar uma vida plena, pelo menos...
Aquele que se quiser perceber com clareza deve se abrir a um confidente, escolhido livremente e merecedor de tal confiança.
Ouça todas a conversas desse mundo, tanto entre nações quanto entre casais. São, na maior parte, diálogos entre surdos.
Paul Tournier.

domingo, 11 de agosto de 2013

A linguagem do amor

Casais apaixonados ou que mantêm um relacionamento de longo prazo não raro se atribuem apelidos carinhosos ou mudam o tom de voz quando falam um com o outro. Segundo pesquisadores da Universidade do Texas em Austin, a identidade afetiva por meio das palavras não para por aí. Um estudo conduzido pelo psicólogo James Pennebaker mostra que pares “bem-sucedidos” ou com mais chances de sê-lo costumam usar o mesmo tipo de palavras funcionais – preposições, pronomes, artigos e conjunções – e com frequência equivalente. Usados em vários contextos, esses termos são, em geral, processados de forma rápida e inconsciente.

Para chegar a essa conclusão, o psicólogo reuniu 80 homens e mulheres e solicitou que cada um conversasse com alguém do sexo oposto por alguns minutos. Em seguida, questionou-os sobre a possibilidade de saírem juntos. Curiosamente, os pares que usaram tipos similares de palavras funcionais se mostraram mais inclinados a marcar outro encontro – mesmo aqueles que declararam não ter muitos pontos em comum.

Em outro estudo, Pennebaker analisou o conteúdo de mensagens de celular enviadas por 86 casais e perguntou aos voluntários quão felizes eles se sentiam com o compromisso assumido. Três meses depois, o pesquisador verificou se os pares ainda estavam juntos. Ele observou que os pares estáveis eram os que trocavam torpedos com mais palavras funcionais em comum. O curioso é que isso se aplicou também a quem declarou estar insatisfeito com o companheiro, na primeira fase da pesquisa.

Agora os pesquisadores querem entender se o vocabulário em comum provoca atração ou se na verdade as pessoas adaptam sua forma de falar, ficando parecidas com o outro. Os dois processos são possíveis, mas Pennebaker acredita que o último seja mais provável: “A linguagem prediz o sucesso dos relacionamentos porque reflete a forma como os casais ouvem um ao outro e se entendem”, reforça o psicólogo.

Facebook, o novo espelho de Narciso II

DITADURA DA ESPONTANEIDADE

Nesse novo ambiente o artificialismo e a mistificação da imagem passam a ser “out”. Deusas etéreas cedem espaço a mulheres que querem ser vistas como “reais”: escovam os dentes, fazem caretas para a câmera, dirigem seu carro e não se importam em ser fotografadas em momentos que antes estariam à margem da esfera pública. Tanto que 42% das usuárias do Facebook admitem a publicação de fotos em que estejam embriagadas e 79% delas não veem problemas em expor fotos em que apareçam beijando outra pessoa. A regra é: quanto mais caseiro, “mais natural”; melhor. O que não significa que essa imagem seja, efetivamente, “natural”, mas que há agora um “gerenciamento da espontaneidade”.

O imperativo da representação feminina nas redes sociais é: “seja espontâneo”. Uma norma paradoxal, assim como a afirmação “seja desobediente, é uma ordem”, escreve o sociólogo Régis Debray. Ele faz uma interessante leitura do que poderíamos chamar de “ditadura da espontaneidade”. Segundo o autor, abandonamos o culto da morte, vivido pelas sociedades tradicionais e religiosas, para vivermos o “culto da vida pela vida” – uma espécie de “divinização do que é vivo” que se apoia no eterno presente e não mais em uma crença no além.

Vemos emergir mulheres que cultuam o que veem no espelho e postam, “religiosamente”, novas imagens de seu cotidiano – sem que tal culto resulte em algum tipo de censura externa ou de autocensura moral. Em outro contexto, como durante o período em que a religião católica era dominante, esse “culto de si” e ao corpo seria considerado um dos sete pecados: a vaidade. Esse imaginário, aliás, é muito bem representado por um quadro do séc. 15, de Hieronymus Bosch, no qual o demônio segura um espelho para que uma jovem se penteie.

Hoje o novo espelho global não é marcado pela vigilância moral. Ao contrário, há um contínuo incentivo da cultura para que as mulheres “se valorizem”, busquem sua singularidade e não se baseiem mais em modelos inalcançáveis (como as top models e outras famosas). E para que percebam em si mesmas uma possibilidade legítima e singular de ser no mundo.
A própria familiaridade e aproximação da mulher com o universo da produção de auto-representações pode levá-la a questioná-las. As mulheres já estão, como escreve Lipovetsky em seu livro A tela global, “cultivadas” pela mídia. Educadas em sua gramática, sabem que o photoshop, a produção e a edição das imagens criam uma mulher irreal e passam a ver essas representações “entre aspas”, distanciando-se criticamente delas. Elas aprendem com recursos autoexplicativos a modelar sua iconografia, a alterá-la, brincar com ela ou melhorá-la (possibilidades, antes, restritas aos profissionais).

Mas a consagração do “culto de si” não significou um isolamento da mulher. Os álbuns publicados nas redes sociais conciliam, contra todas as expectativas, o individualismo e as trocas. Um se alimenta do outro. Há um ciclo: exponho minha individualidade, acompanho a do outro e ele a minha e, assim, somos incentivados a produzir e expor, cada vez mais, as nossas imagens. Trata-se do nascimento de uma “identidade coletiva”, em que a individualidade não elimina a interação, mas é seu motor. Nesse sentido, a identidade coletiva não é produto apenas de uma adesão grupal e sim uma forma de negociação de posições subjetivas – esse é o paradoxo identitário a ser considerado.

Fotos pessoais e “amigos” virtuais (ou não) ditam o ritmo desse espaço interativo. Quanto mais caseiro, mais cotidiano, mais espontâneo, maior o número de relações entre as pessoas, que passam a valorizar a autenticidade e a vida de quem é “próximo”, “real”. Há, na base desse fenômeno, uma democratização dos desejos de expressão individual na medida em que as mulheres buscam conquistar espaços de autonomia pessoal – que traduzem a necessidade de escapar à simples condição de consumidoras daquilo que outros produzem. Elas querem colocar seu rosto no mundo. Aparecer ou não na “tela global” passa a ser uma questão de existência. Por essa razão, ter visibilidade e oferecer sua identidade publicamente é conferir importância à própria existência. O que é, também, uma forma de poder. Nesse ponto a mídia – como campo de visibilidade – passa a ter papel central para entendermos a luta simbólica pelo reconhecimento.

No entanto, essa “democratização” da auto-representação feminina não deve ser tomada como sinônimo do fim da competição estética e ética entre as mulheres. O que tudo indica, o que presenciamos não é a instauração de uma igualdade, mas a ampliação do número de mulheres na disputa por visibilidade e poder. Amplia-se, assim, a arena para buscar um poder que não está dado de antemão, mas que deve ser conquistado e manejado pela apresentação e representação de suas singularidades, de suas diferenças. Um agir que se manifesta na criação, no controle e no poder simbólico de sua própria imagem no espaço público, que só se realiza com o reconhecimento do outro nas interações sociais, associativas e na ampliação dos círculos de reconhecimento que estão dentro e fora do espaço de produção da imagem. 
Fonte. Revista Mente cérebro

Facebook, o novo espelho de Narciso

As mulheres gastam mais do que o dobro do tempo dos homens no Facebook: três horas por dia, enquanto eles gastam uma hora, em média. Entrar na rede social é a primeira ação diária de muitas delas, antes mesmo de irem ao banheiro ou escovarem os dentes. Uma atividade cumprida como um ritual todos os dias – e noites. Em um estudo, 21% admitiram que se levantam durante a noite para verificar se receberam mensagens. Dependência? Cerca de 40% delas já se declaram, sim, dependentes da rede. Elas são a maioria não só no Facebook (onde representam 57% dos usuários); também têm mais contas do que os homens em 84% dos 19 principais sites de relacionamentos.

Essas são algumas revelações da pesquisa feita pelas empresas Oxygen Media e Lightspeed Research, que analisou os hábitos on-line de 1.605 adultos ao longo de 2010. Mas cabe ainda perguntar: que motivos levam as mulheres a ficar tanto tempo na frente do computador? Vaidade? Necessidade de reconhecimento? Seria esse fenômeno uma nova forma de autoafirmação? Uma maneira de desenvolver sua individualidade aliada ao reconhecimento do outro? Será essa uma nova forma de buscar sociabilização?

Mais do que procurar uma resposta fácil, cabe, antes, compreender por que a auto-representação é mais importante para as mulheres que para os homens. Historicamente as representações femininas foram fabricadas por motivações sociais diversas: míticas, religiosas, políticas, patriarcais, estéticas, sexuais e econômicas. E, há mais de vinte séculos, essa fabricação esteve sob o poder masculino. As mulheres não produziam suas próprias imagens, eram retratadas.

Em obras de arte célebres vemos inúmeras Vênus adormecidas, (como as de Giorgione, 1509; Ticiano, 1538 e Manet, 1863); Madonas castas (nas imagens religiosas das catedrais católicas como as pintadas por Giotto, no século13, e Botticelli, no 15) ou mulheres burguesas no espaço doméstico cuidando da cozinha e da educação dos filhos (como as pintadas por Rapin e Backer no século 19). Eram cenas “pedagógicas”, que ensinavam o valor da maternidade, da castidade, da beleza e da passividade.
vênus adormecida, óleo sobre tela, giorgione, 1508-10, galeria dos grandes mestres da pintura, dresden
A estética feminina foi estabelecida, durante muitos séculos, pelo olhar masculino; as obras de arte tinham cunho “pedagógico”, com a intenção de ensinar como as mulheres deveriam ser
O pano de fundo dessas produções artísticas era uma tentativa masculina de “gerenciar” o imaginário feminino, transmitindo sugestões sobre a conduta social desejada até uma estética sexual e familiar. Como enfatiza a historiadora Anna Higonnet “os arquétipos femininos eram muito mais do que o reflexo dos ideais de beleza; eles constituíam modelos de comportamento”. Sua capacidade de persuasão era ativada pelo contexto cultural. Um exemplo pontual, mas significativo, pode ilustrar essa hipótese. O nu é quase sinônimo do “nu feminino”. Do Império Romano, passando pelo Renascimento, pela Modernidade e até os dias de hoje, o corpo da mulher reflete os ideais estéticos predominantes.

A historiadora francesa Michelle Perrot chegou a afirmar que “a mulher é, antes de tudo, uma imagem”. Aqui sua ênfase é irônica. Refere-se a uma forma de retratar que associava os cuidados com o corpo, os adornos, as vestimentas e a beleza em geral à atividade, ou melhor, à ociosidade tipicamente feminina”, enquanto os homens deveriam se ocupar de tarefas consideradas sérias: política, economia e trabalho.

Quando a era moderna pareceu, enfim, trazer a emancipação da mulher, a conquista revelou-se contraditória. Estar na moda, ser magra, bem-sucedida e boa mãe tornou-se uma exigência. Com a ajuda do photoshop, top models, estrelas de televisão e cantoras exibem nos meios de comunicação o êxito que conquistaram em todos os aspectos do sucesso – o que, na prática, nem sempre é verdade. Elas, em geral, são tão “irreais” quanto a Vênus grega. A verdade é que a mídia veicula uma série de estereótipos sobre como agir que se tornam um peso para a mulher. Não devemos nos esquecer de que quem assume o comando é o mercado interessado em vender roupas, revistas e produtos destinados ao público feminino – e não propriamente a mulher. Assim, mesmo no século 20, quando pareciam ganhar “autonomia”, elas passaram a ser atormentadas por padrões estabelecidos por outra base imaginária: a do consumo.
O que muda no século 21 para as mulheres que utilizam as redes sociais? Quanto à importância da imagem, nada. Ela -continua a ter papel central para a identidade social feminina, confundindo-se com ela. Por outro lado, vivemos, sim, uma revolução: pela primeira vez a mulher passa a se autorrepresentar, a produzir representações de si publicamente. Essa produção não está mais sob o domínio exclusivo dos homens, nem restrita a um grupo de mulheres como as artistas (atrizes, fotógrafas, cineastas, pintoras, escultoras etc.) ou as modelos. As mulheres comuns tornam-se protagonistas de sua vida. Chegam a dispensar a ajuda de outra pessoa para tirar a própria foto: estendem o braço e miram em sua própria direção. Algumas marcas de câmeras fotográficas desenvolveram inclusive um visor frontal para que a pessoa possa ajustar o foco caso use o equipamento para se fotografar.

A mulher “hipermoderna” reivindica algo novo: o seu protagonismo público e sua “autenticidade”. O que se soma, agora, à revolução tecnológica da sociedade capitalista. Com acesso facilitado a câmeras digitais, a telefones móveis que dispõem desse equipamento e à rede, além da existência de uma plataforma que dá suporte ao armazenamento e oferece possibilidades ao usuário para compartilhar essas imagens pela internet, a mulher passa a se autofotografar nas mais diversas ocasiões, de situações corriqueiras a viagens. Nas palavras do filósofo Gilles Lipovetsky: “O retrato do indivíduo hipermoderno não é construído sob uma visão excepcional. Ele afirma um estilo de vida cada vez mais comum, ‘com a compulsão de comunicação e conexão’, mas também como marketing em de si, cada um lutando para ganhar novos ‘amigos’ para destacar seu ‘perfil’ por meio de seus gostos, fotos e viagens. Uma espécie de autoestética, um espelho de Narciso na nova tela global”. 
Fonte. Revista Mente cérebro.
Isabelle Anchieta

Narcisismo III

ESPELHO DE DUAS FACES
Não raro, pessoas com traços narcísicos marcantes se colocam em situações que prejudicam a si próprias. Os resultados de um estudo desenvolvido pelo psicólogo W. Keith Campbell e seus colegas da Universidade da Geórgia mostraram que o narcisismo está vinculado à tomada confiante de decisões, embora isso muitas vezes ocorra de forma precipitada – como ao apostar em projetos pessoais de maneira imprudente. Em outro trabalho, os pesquisadores relacionam a característica à infidelidade e à impulsividade. Pessoas muito voltadas para si mesmas também podem ser propensas à agressão, especialmente após receberem insultos. Um estudo conduzido pelos psicólogos Brad J. Bushman, da Universidade Estadual de Ohio e Roy F. Baumeister, da Universidade Estadual da Flórida, indicou que estudantes universitários considerados narcisistas têm grande probabilidade de agir de forma vingativa e intempestiva contra quem os ofendeu. Os cientistas pediram a um participante (na verdade, um pesquisador disfarçado) que criticasse um texto escrito pelos alunos, o que foi recebido por eles como uma ofensa. Os pesquisadores entenderam que a crítica negativa foi encarada pelos voluntários como uma ameaça ao próprio ego, não como se fosse um trabalho desvalorizado, mas como se eles mesmos tivessem sido profundamente atacados.

Já o psicólogo Paul Nestor, professor da Universidade de Massachusetts, Boston, ressaltou que pessoas com características intensas do transtorno de personalidade narcisista têm forte risco de passar por situações de violência e desenvolver também o transtorno de personalidade antissocial, relacionado a atos irresponsáveis e, em casos extremos, à prática criminosa. Comportamentos autodestrutivos também podem decorrer do desespero de pessoas narcisistas que deixam de ter seu potencial reconhecido pelos outros. Em um estudo de 2009, uma equipe liderada pelo psicólogo Aaron L. Pincus, da Universidade do Estado da Pensilvânia, relacionou características do narcisismo patológico com tentativas de suicídio. Dados de 2011 apontam que egocêntricos vulneráveis (não os pretensiosos) correm mais riscos de machucar a si mesmos, às vezes de maneira inconsciente, ter pensamentos suicidas e até se automutilar – o que pareceria contraditório para alguém que se valoriza tanto, se na base desses sintomas não estivesse uma enorme fragilidade psíquica.

Por outro lado, uma pesquisa de 2009 conduzida pela psicóloga Amy B. Brunell, da Universidade do Estado de Ohio, em Newark, apontou que pessoas com característica narcísica rapidamente emergem como líderes em discussões de grupo e nas redes sociais, apresentando maior probabilidade de alcançar posições de destaque, por sua atitude carismática, propostas eficazes e criativas.  O problema nesse caso, é que, dependendo do grupo, líderes excessivamente voltados para si próprios podem inibir seguidores potenciais – e nem mesmo notar que provocam essa reação. O psicólogo Timothy A. Judge e seus colaboradores da Universidade da Flórida demonstraram que estudantes de um programa de gestão considerados narcisistas tendiam a se perceber como ótimos líderes, embora outras pessoas não os julgassem tão bem.

As vantagens de ser voltado aos próprios interesses, porém, se estendem além da liderança. Em um estudo publicado em 2011, o psicólogo Peter D. Harms e seus colegas da Universidade de Nebraska-Lincoln mostraram que pessoas consideradas narcisistas costumam se destacar em entrevistas de emprego simuladas, geralmente devido à habilidade de se autopromover. Esses resultados estão de acordo com outra pesquisa feita em 2006 por pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia. Os cientistas apontaram elevado grau de narcisismo em celebridades, comparadas com a população em geral. Considerar esses resultados pode nos levar a pensar que, apesar de a admirável capacidade de autopromoção de narcisistas pretensiosos possa ser incômoda para muitos que os rodeiam, é possível aprender com essa característica. Talvez, sustentar-se no centro do universo realmente seja cansativo demais, mas manter-se no controle da própria vida, sem a obrigação de brilhar em tempo integral, pode trazer muita satisfação.

Narcisismo I

Não é de hoje que o narcisismo tem má reputação. A depreciação dessa característica remonta pelo menos à antiga mitologia grega. Uma das narrativas desse velho mundo conta que o belo caçador Narciso (que, sem dúvida, ficaria bem satisfeito com sua atual fama) observou seu próprio reflexo na água e se apaixonou profundamente. O rapaz ficou tão impressionado com a imagem de si mesmo que morreu olhando para ela. Para a psicanálise, trata-se de um aspecto fundamental para a constituição do sujeito. Um tanto de amor por si é necessário para confirmar e sustentar a autoestima, mas o exagero é sinal de fixação numa identificação vivida na infância. A ilusão de que o mundo gira ao nosso redor é decisiva durante a infância, mas para o desenvolvimento saudável é necessário que se dissipe, conforme enfrentamos frustrações e descobrimos que não ser o centro do universo tem suas vantagens. Afinal, ser “tudo” para alguém (como acreditamos, ainda bem pequenos, ser para nossa mãe) é um fardo pesado demais para qualquer um. Alguns, no entanto, se iludem com o fascínio do papel e passam sua vida almejando o modelo inatingível de perfeição.

É compreensível que, de forma exacerbada, a característica seja associada à patologia – embora na última versão do Manual diagnóstico e estatístico de transtorno mentais, o DSM-5, lançada recentemente, o narcisismo tenha deixado a categoria de “distúrbio”. Alguns críticos dessa versão do manual sugerem que, apesar dos evidentes prejuízos que uma atitude marcada pelo narcisismo possa trazer, não interessa à poderosa indústria farmacêutica ressaltar essa questão, já que não há indicação de “remédio” para seu tratamento e, ao mesmo tempo, nossa sociedade incentiva todas as formas de autogratificação, ainda que isso não traga verdadeiro bem-estar.

Na edição anterior do DSM, o transtorno de personalidade narcisista era definido como sentimento excessivo de autoimportância, fantasias irreais de sucesso e intensa inveja, muitas vezes disfarçada, das realizações alheias. Pessoas com o distúrbio também tendem a acreditar que merecem tratamento especial ou que foram injustiçadas quando não obtêm tudo aquilo que desejam. Há casos em que enfrentar o trânsito congestionado ou uma fila atrás de alguém que consideram menos importante, por exemplo, pode causar enorme mau humor, como se fosse uma agressão ser exposto a esse tipo de desconforto.

De fato, a compreensão contemporânea do narcisismo, mesmo entre leigos, raramente é amena. Faça um teste: digite em sites de busca as palavras “narcisistas são”. Certamente aparecerão termos pejorativos, como “egoístas”, “imaturos”, “superficiais” e “egoístas” para completar a frase. Apesar de essas características provavelmente serem indesejáveis, recentemente o psicólogo Jean M. Twenge e seus colegas da Universidade de San Diego apontaram que o “grau” de narcisismo de universitários americanos subiu vertiginosamente nas últimas décadas. Faz sentido se pensarmos que nossa cultura incentiva o individualismo e o culto ao “eu” e ao “meu”.

É certo que pelo menos em parte a má fama do narcisismo seja merecida. No entanto, alguns pesquisadores apontam nuances dessa característica. Embora em excesso esse aspecto torne o convívio difícil, quando bem dosados, o amor-próprio e a autoestima são fundamentais para a busca de experiências saudáveis e a validação delas, o cuidado consigo mesmo e até para o exercício de atividades que exijam iniciativa, liderança e criatividade.

As sessões (The Sessions)

As SessõesParalisado desde os 6 anos pela poliomielite, o escritor, poeta e jornalista Mark O´Brien só podia mexer a cabeça e passava a maior parte do dia dentro de um tubo de ferro para estimular seus pulmões. 

Com esses dados, parece fácil deduzir que o filme As Sessões, inspirado em uma história real, apresente toques de melodrama. Mas é justamente ao afastar-se desse caminho óbvio que o diretor australiano Ben Lewin – que, aliás, assim como o personagem principal, é também um sobrevivente da pólio – promove a discussão sobre as infinitas possibilidades humanas e lembra que a sexualidade ultrapassa os limites do corpo.


A despeito das dificuldades que enfrenta, aos 38 anos O´Brien é um homem bem-humorado e criativo, embora perseguido pela curiosidade na experiência sexual. Sua formação católica – diz ser religioso “por achar intolerável não acusar alguém por tudo isso” – o leva a longas conversas com o padre da paróquia, na busca de uma autorização espiritual que o livre da culpa pelo desejo. Numa relação afetuosa e despojada, o sacerdote o apoia na árdua tarefa de perder a virgindade.

Estamos, então, no início da década de 80, uma época em que terapêuticas sexuais corporais ganham espaço. É importante lembrar que os anos 60 e 70, marcados pelo pós-guerra e pelas revoluções culturais, foram cenários de verdadeiras explosões sociais, ideológicas e artísticas. Proliferavam estudos voltados ao prazer e à liberação sexual. Autores como Masters e Johnson contribuíram significativamente para aliviar a repressão de alguns tabus arraigados e trouxeram melhora na qualidade de vida das pessoas. 

Na Califórnia não faltavam cursos e dinâmicas de grupo voltados à autoliberação. Nesse contexto, o atendimento com a terapeuta sexual Cheryl Cohen Greene, especializada em pessoas com sérias deficiências físicas, interpretada no filme por Helen Hunt, é indicado a O´Brien por uma professora universitária que estuda o tema.

Na vida real, Cheryl de fato fazia esse tipo de trabalho. Didaticamente, a personagem do filme esclarece não se tratar de prostituição, mas de processo terapêutico com objetivos específicos, argumentando, por exemplo, que “a prostituta busca manter um vínculo de dependência e nossos encontros têm número de sessões previamente estabelecido”. Mais que essa diferenciação, bastante questionável, chamam a atenção a atitude profissional, a busca da objetividade, o estabelecimento do contrato e os registros feitos após cada sessão.

Surpreende o encontro singular e generoso entre o paciente e a terapeuta, sem espaço para a vitimização. Um laço emocional necessário se faz presente durante as sessões de sexo. À medida que olhares e toques se estendem além da fisiologia e dos fluidos do corpo, a ansiedade e a insegurança do iniciante são, aos poucos, aliviadas pela experiência. E a despeito de limitações tão explícitas, os dois constroem uma relação peculiar. “Tudo é ao mesmo tempo inesperado e natural”, descreve O’Brien.

Há mais de um século Freud preocupava-se em descrever as pulsões como forças ligadas às relações de objeto, o que faz inevitavelmente do homem um ser em relação. O que nos torna sujeitos depende da qualidade e da dinâmica dos vínculos estabelecidos desde os primeiros momentos de vida. A ideia do outro está presente mesmo na fantasia. Onde há relação, está inevitavelmente presente algum tipo de afeto. Podemos deduzir, então, que O’Brien soube encontrar em Cheryl aspectos sutis que favoreceram a vivência de empatia e intimidade.

O mundo contemporâneo tem valorizado as imagens num processo que o escritor francês Guy Debord (1931-1994) chamou de “sociedade do espetáculo”. Corpos expostos e apelos sexuais parecem banalizar o contato com o outro, num incentivo ao hedonismo vaidoso. Apesar do acesso à informação e dos apelos do sexo, as questões relativas à sexualidade e subjetividades são menos lembradas. Não é à toa que tantos autores reconhecem e destacam os contornos narcisistas e depressivos da contemporaneidade.

Em As sessões os objetivos tecnicamente previsíveis não mascaram inevitáveis ansiedades e expectativas que acompanham desejos intensos. Apesar do corpo paralisado, a vontade de experimentar permanece viva. O artigo “Encontros com uma substituta sexual”, que inspirou o filme, e as histórias de amor vividas – ou fantasiadas – por O’Brien brotam na sensibilidade de sua poesia: “Deixa-me tocar-te com minhas palavras, pois minhas mãos jazem caídas como luvas vazias, deixa minhas palavras acariciarem teus cabelos, pois minhas mãos leves, mas inertes como tijolos, ignoram minhas vontades e se recusam a realizar meus desejos mais silenciosos”.

As Sessões/ The SessionsEUA/ 2012/ 95 min/ Direção: Ben LewinElenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, Adam Arkin, Rhea Perlman, W. Earl Brown, Robin Weigert, Blake Lindsley, Jennifer Kumiyama, Tobias Forrest

Amor (Amour)

O doloroso exercício da finitude. Em Amor, Michael Haneke mostra de maneira corajosa o processo de decadência física e psíquica. 

Morremos, é fato. Fenômeno óbvio – sabemos racionalmente.  Mas, não raro, o tratamos como se fosse exceção. E o fazemos não só pelo apego à vida, mas possivelmente também pela falta de representação subjetiva dessa experiência. Por mais que prevaleça a negação – principalmente numa cultura como a nossa, que nos convida a viver para sempre – e o incômodo em relação a esse desfecho, é impossível escapar do que está por vir. Morre-se a qualquer momento (não diz o ditado que basta estar vivo?), é inegável. Mas quanto mais os anos passam, temos consciência – sim, em algum lugar de nós temos certeza – de que nos resta menos tempo a cada dia. Curioso é que diante do inevitável quedamos abismados, como se tivéssemos sido traídos. E se haver-se com a própria morte é difícil, assistir a um objeto de amor definhar de forma irreversível é uma experiência complexa, que desperta uma gama de sentimentos. E, principalmente, nos coloca de forma direta com a finitude. É assim no premiado Amor.

O austríaco Michael Haneke, autor, diretor e roteirista, estudou psicologia e filosofia na Universidade de Viena – uma formação que provavelmente contribui para que apresente maneiras menos idealizadas de ver o ser humano e as relações. O filme, aliás, apresenta uma lição desconfortável: o amor não vence tudo e – por mais que tenhamos vivido belas histórias, apreciado obras de arte, criado filhos, construído relacionamentos – o peso da decadência sempre nos ronda. Além disso, o filme nos lembra quanto é trabalhoso morrer.

Muito além da angústia propriamente dita, dos dramas existenciais, do luto, do sofrimento e dos problemas sociais e mesmo das questões práticas, há imenso esforço – tanto físico quanto psicológico – envolvido no percurso rumo à morte. E não apenas de quem morre, mas também daquele que, por necessidade ou por escolha, acompanha esse processo – e, desta forma, também termina por morrer um pouco.

O diretor do intrigante A fita branca, que mostra primórdios da insanidade nazista, e de Caché, sobre a violência dissimulada, expõe desta vez os últimos dias de um simpático casal de idosos, Georges, vivido por Jean-Louis Trintignant, e Anne, interpretada por Emmanuelle Riva. Num exercício de despojamento, os dois atores – que, quando jovens foram ídolos do cinema – expõem ao olhar impiedoso das câmeras rostos sulcados pelas rugas, cabelos ralos e desgrenhados e corpos enfraquecidos.

Já na cena de abertura o espectador – mesmo o mais desavisado – percebe qual será o desfecho quando bombeiros arrombam a porta do apartamento do casal, abrem as janelas e constatam o falecimento de Anne, possivelmente ocorrido há alguns dias. Seu corpo, rodeado de pequenas flores, foi cuidadosamente arrumado sobre a cama – ela vestida com esmero e penteada. Meses antes, os dois músicos aposentados viviam uma intimidade marcada pela ternura: passeiam, vão a um concerto e administram as questões do dia a dia. Ele elogia a beleza da mulher: “Eu me lembrei de dizer que esta noite você estava realmente bonita?”. O cenário é um apartamento também antigo, algo sombrio, porém espaçoso e ainda confortável, repleto de livros, quadros e discos – objetos que testemunham uma vida marcada pelo gosto pelas artes.  Mas de repente – aliás, como acontece não só nos filmes, mas também na vida – sobrevém a tragédia: Anne sofre um acidente vascular cerebral que paralisa metade de seu corpo e a deixa numa cadeira de rodas.

Em Amor, assistimos impotentes à entrada em cena de dois grandes fantasmas da velhice: a solidão e a dependência. Talvez a desventura pareça ainda mais inquietante porque os protagonistas são dois intelectuais da alta burguesia, com recursos culturais e econômicos que – pelo menos teoricamente – deveriam protégé-los da catástrofe.

Enquanto ainda tem condições de se expressar, ela procura reagir com dignidade. Mesmo abatido, Georges cuida dela delicadamente: ajuda a despir-se, usar o vaso sanitário, tomar banho e comer. Anne não deixa de dizer “por favor” e  “obrigada”. Mas a angústia e o medo do futuro dominam a ambos a cada momento. “Prometa-me que não me levará mais ao hospital”, pede a mulher com a voz tranquila e firme, assim que chegam em casa, após a alta médica. Embora permaneça em silêncio, o marido irá procurar atender a esse desejo, da melhor forma que lhe é possível. O compromisso, porém, é penoso: ele assume pessoalmente a maioria dos cuidados cotidianos, enquanto as condições de Anne pioram.

No decorrer do filme, os diálogos aparecem gradativamente mais rarefeitos, não há música de fundo; o que prevalece é a sensação do enorme esforço físico do marido para levantar a doente, alimentá-la, acompanhá-la ao banheiro, resignar-se enfim a colocar-lhe o fraldão. Conversa com ela e canta, mesmo quando Anne não faz mais do que apenas balbuciar. Um dos momentos impactantes é sua exasperação quando Anne insiste em não comer a papa que ele lhe oferece às colheradas. Sim, é possível entendê-la: perdeu-se de si mesma de uma hora para outra, o corpo não responde a seus comandos, está emocionalmente cansada, profundamente triste e debilitada; a recusa da comida é arecusa da vida. Ele, por sua vez, exausto e desamparado, tem cada vez mais dificuldade de sustentar Anne – seja fisicamente, para mudá-la de posição, ou emocionalmente, para mantê-la viva. Nessa fase, Georges se nega a atender o telefone; por orgulho ou pudor, não quer receber visitas e expor sua miséria. Anne não deseja nem ouvir música, há uma progressiva restrição dos interesses e da energia vital, tudo parece concentrado na mera sobrevivência.

Para aliviar a demanda, Georges chega a contratar duas enfermeiras, pagas por hora. Porém, ambas pouco envolvidas afetivamente e ele descobre que ter as profissionais por perto pode ser ainda mais desgastante. Paralelamente, a frieza e o descomprometimento de Eva, única filha do casal, vivida Isabelle Huppert, tornam o abandono ainda mais evidente. Ocupada com a própria vida, se emociona e se “preocupa”, desde que o drama dos pais não ameace suas prioridades. A única ligação dos idosos com o mundo externo acaba sendo o casal de prestativos porteiros, que sobem de vez em quando para limpar um pouco a casa ou, incentivados por gorjetas, fazem compras.

O desafio da trama parece ser dar sentido justamente ao que escapa ao sentido. Uma metáfora dessa busca parecem ser as cenas do pombo que insiste em entrar por uma janela aberta e Georges, repetidamente, se empenha  em espantá-lo. Podemos pensá-las como uma representação da realidade inexorável do envelhecimento e da finitude que ganham espaço por mais que desejemos afastá-las.  Talvez uma das coisas mais tocantes de Amor seja o fato de que é incomodamente possível, factível, verdadeiro. Poderia ser comigo. Poderia ser com você. Talvez um dia seja...
Amor/ Amour: França, Alemanha, Austria/ 2012/ 127 min/ Direção: Michael HanekeElenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Alexandre Tharaud, William Shimell

por 

Dentro de casa (Dans la maison)

O fascínio pela vida alheia

No início de mais um ano letivo, o professor Germain está entediado. Pede a seus alunos, a maioria com 16 anos, que escrevam sobre 48 horas de sua vida. As redações falam de pizza, programas de televisão, sono e... nada. Irritado por ter sido “agraciado” com “a pior das classes”, o homem de meia-idade partilha os textos e as impressões a respeito deles com sua mulher, Jeanne. Apesar de interessada, a prioridade dela parece ser a manutenção de seu emprego como coordenadora de uma galeria de arte moderna cujo proprietário faleceu. 


O esvaziamento e a superficialidade das narrativas lidas em voz alta por Germain, enquanto as corrige, em casa, são quebrados pelo texto intimista e revelador do jovem Claude. O adolescente escreve sobre a experiência de se aproximar de um colega da sala de aula, Rafa – um garoto “normal”, com pais “normais”. O objetivo é entrar na casa da família. É sobre a mistura de intimidades, de histórias que se cruzam mediadas pelo olhar do adolescente, que trata Dentro da casa, dirigido por François Ozon.

Por si só, a curiosidade do personagem é compreensível. Ora, quem nunca quis saber como vive o outro, como são suas relações e sua sexualidade? No caso de Claude, no entanto, seu interesse e o plano de aproximação não se traduzem de forma banal. Ele se reconhece como “elemento estranho”, identificado com a imagem de um dragão sobre a TV que olha ameaçadoramente para a foto da “santa família” no porta-retratos.

A forma que encontra para chegar perto do colega, oferecendo-se para lhe ensinar matemática, é premeditada. Antes disso, porém, ele já acompanhava a rotina da casa, estrategicamente sentado num banco de praça, na mesma rua. Uma vez no interior da casa o garoto percorre cada canto vasculha cômodos e objetos; observa, avalia gestos, aromas e costumes. Fragmentos de conversas ouvidos atrás das portas revelam os conflitos do casal e as angústias tanto de Rafa pai, quanto de Esther, a mãe.

O voyeurismo experimentado pelo protagonista é estendido a Germain e Jeanne. No início o jovem se satisfaz em percorrer discretamente os cômodos da casa, na ânsia de olhar pessoas, até há pouco estranhas, que não suspeitam que estejam sendo observadas. Mas ele quer mais: vê (ou talvez apenas imagine ver) o casal fazendo sexo. No texto Três ensaios sobre a sexualidade infantil, de 1905, Freud associa o prazer de ver (escopofilia) à perversão.

Expondo traços perversos de sua personalidade, o rapaz seduz o professor com suas redações que sempre anunciam que há mais por vir, já que ao fim de cada texto ele escreve: “continua”. Seduz também o colega, o pai e a mãe. Em algum momento do filme, cada um desses personagens, e até mesmo Jeanne, se apaixona por Claude. Mas é Esther, a mãe, que ele quer. Embora ele sinta no início certo desprezo pela mulher, por sua forma de falar e por seus anseios, aos poucos, porém, ela se torna objeto de seu desejo.

Ao penetrar na casa, organizada, limpa e cheirosa, Claude afasta-se da própria realidade: a vida em uma residência bem menor, com o pai, deficiente físico que parece ocupar pouco lugar na vida do filho, e a ausência mãe, que foi embora quando o menino tinha 9 anos. A história de abandono, certamente fonte de sofrimento, é estrategicamente usada pelo rapaz para conseguir a atenção e o afeto das pessoas, numa tentativa de manipular o outro. Não há nessa forma de relacionar-se qualquer resquício de culpa, e é como se as pessoas fossem realmente personagens que pudessem ser manipulados pelo garoto a seu bel-prazer. Em dado momento Germain orienta Claude: “Pare de pensar em meus desejos, pense em você, no que o excita”. Os desejos, porém, já parecem impregnados uns dos outros.

A narrativa, marcada pela partilha, chega ao limite da contravenção. Reconhecendo seu lugar de educador, adulto e responsável, Germain teme as consequências de seu envolvimento, tenta diferenciar-se, mas não encontra em si mesmo forças para reverter a atração, é preciso que interdições externas o barrem – e elas inevitavelmente vêm. Estabelece-se um jogo entre o professor e o aluno – arriscado e ao mesmo tempo estimulante. O jovem escreve especificamente para Germain, que, por sua vez, vê nele o talento para a literatura que gostaria de ter. Isso se revela nas constantes conversas após a aula, que oferecem um toque de fantasia à rotina do professor. 

No lugar de observadores, Germain e Jeanne experimentam o gozo de acompanhar o desenrolar da vida alheia como se espiassem pelo buraco da fechadura. É a mulher quem se dá conta, em dado momento da trama, que, após a entrada de Claude na vida do casal, os dois já não mantinham relações sexuais – o desejo parece ter sido canalizado para o prazer de “olhar” os outros, ainda que por meio das palavras escritas pelo estudante.

Ao estudar o brincar e seu papel na organização psíquica, o psicanalista inglês Donald Winnicott afirma que não se pode entender a fantasia apenas como realização alucinatória do desejo ou como forma de enfrentar ou defender-se de uma realidade traumática, mas também como forma de estabelecer relações criativas com o mundo externo. 

O brincar – no caso de Claude, o olhar e a escrita – parece ter importância em si, não apenas como meio. “A fantasia é mais primária que a realidade e o enriquecimento da fantasia com riquezas do mundo depende da experiência da ilusão”, escreve Winnicott em 1945.

Desenhando na lousa, Germain ensina: “Um personagem quer realizar seu desejo, mas ao longo do caminho surgem obstáculos; Ulisses quer voltar para casa, mas o ciclope pretende matá-lo, as sereias o hipnotizam e as bruxas o sequestram”. Às vezes, porém, o conflito não está entre o herói e alguém de fora, é interno. Aquiles, por exemplo, se questiona se quer ir para Troia ou ficar com sua amada. Claude não parece ter dúvidas: ele quer fazer parte de algo, estar dentro. 

Não importa exatamente de onde, ele anseia ser incluído. Alimenta a ideia de que há outros personagens de quem se aproximar, outras vidas das quais se nutrir. Afinal, como o fim de seus textos indicavam, sempre “continua”...

Dans la maison, 2012 | Dirigido por François Ozon | Roteiro de François Ozon, baseado na peça de Juan Mayorga | Elenco: Fabrice Luchini, Ernst Umhauer, Kristin Scott Thomas, Emmanuelle Seigner, Denis Ménochet, Bastien Ughetto, Jean-François Balmer, Yolande Moreau, Catherine Davenier e Vincent Schmitt | Distribuidora: California Filmes

A Caça (Jagten)

Em 1995, os diretores dinamarqueses Thomas Vinterberg e Lars von Trier organizaram o movimento Dogma 95, voltado ao resgate do cinema realista, sem apelos comerciais e efeitos tecnológicos ou cenográficos que mascarassem a comunicação direta e sem disfarces. Mais interessados no conteúdo de seus trabalhos, geralmente densos e impactantes, esses diretores despertam a inevitável polêmica de quem marca sua diferença. Em A caça, Vinterberg não deixa de lado essa proposta e segue esse estilo.


A trama se desenrola num vilarejo na Dinamarca num ritmo seco, com pouca luz e cenário simples, quase sem fundo musical. O protagonista, vivido pelo ator Mads Mikkelsen, é Lucas, professor de uma escola infantil que tenta refazer sua vida após um tumultuado divórcio. Nas horas de folga, aprecia a caça de alces e os alegres e descontraídos encontros com um grupo de amigos de longa data. Tudo começa a mudar quando a pequena Klara, interpretada por Annika Wedderkopp, uma das alunas, filha de um de seus companheiros, insinua o abuso sexual.

Mas o que realmente teria ocorrido?  Num ambiente familiar tumultuado, a menina de 5 anos acompanha as manifestações de rebeldia de seus irmãos adolescentes. Os garotos, que ainda não conseguem lidar com seus hormônios e impulsos em ebulição, apresentam a ela cenas de sexo na internet e usam vocabulário inadequado para a idade da menina. Aos poucos, Klara começa a se apegar mais intensamente ao professor. Mas ao lhe oferecer um presente e lhe pedir um beijo, sente--se rejeitada quando o educador não atende a sua demanda. Frustrada e com raiva procura a coordenadora da escola. Usa para se expressar a terminologia assimilada na convivência com seus irrequietos irmãos e alega ter visto o pênis de seu professor – “grande e duro como um bastão”.

Após esse evento, um enxame de acusações transforma Lucas num monstro indefensável aos olhos das pessoas com quem convive. Além de ser afastado de suas atividades profissionais, passa a ser evitado por todas as pessoas da comunidade, até mesmo pelos amigos. O clima na cidadezinha fica cada vez mais violento e, sem que ocorra alguma discussão mais cuidadosa sobre o caso, a situação culmina com a expulsão do professor.

Várias questões podem ser pensadas a partir do tema apresentado no filme. Podemos tomar duas delas para reflexão. A primeira diz respeito à necessidade grupal de escolher “bodes expiatórios”. A origem do termo está na tradição judaica: consta na Torá que o sacerdote colocava as mãos sobre o animal, confessava os pecados do povo de Israel para depois deixá-lo morrer ao relento, num ritual de purificação por meio do sacrifício. No texto Psicologia das massas e análise do eu, de 1920, Sigmund Freud cita o sociólogo Gustave Le Bon e apresenta uma discussão sobre o funcionamento grupal. Segundo o autor, ocorre no grupo uma espécie de “contágio” que acaba por diminuir consideravelmente os interesses individuais. O que é heterogêneo submerge no que é homogêneo. A capacidade individual para uma reflexão crítica torna-se rebaixada e ocorre uma visível regressão. As emoções se exaltam e as pessoas se tornam mais sugestionáveis: verdades absolutas e maniqueísmo inibem dúvidas e incertezas. Assim, a realidade perde espaço para a ilusão – uma ilusão autoritária, absoluta e coletiva.

A outra questão aparece numa frase dita várias vezes ao longo do filme: “Crianças não mentem”. Autores da psicologia do desenvolvimento e educadores de fato não discordam dessa frase: crianças em tenra idade não mentem – mas fantasiam e pouco sabem das consequências do que dizem. Se a palavra “ingênua” tem origem na ideia daquilo que ainda não nasceu, podemos inferir que Klara gerou, sem perceber, a revelação de questões e ansiedades latentes. Dominados por um furor maníaco, os habitantes do vilarejo passam a ver em Lucas a encarnação dos males mais profundos da coletividade. Conflitos ligados a possíveis desejos incestuosos reprimidos fazem do professor o depositário desses impulsos, vivenciados com repugnância pela comunidade. Fica manifesto em um só membro do grupo conteúdos que não podem ser reconhecidos ou sequer pensados. Nesses casos, a massa social cria uma espécie de autoproteção ao eleger seus bodes expiatórios, detentores de sentimentos e instintos que os grupos e seus componentes não são capazes de confessar. E para a defesa desse mal, qualquer crueldade e violência ganham uma inquestionável justificativa.

Leis e normas sociais existem para facilitar a organização de um grupo. A vida civilizada permite o desenvolvimento da cultura, da arte, da produtividade e criatividade. Mas deixar de lado singularidades e sentimentos reforça a constituição de uma sociedade totalitária, maniqueísta e infantil. A complexidade humana exige avaliações mais profundas: rigidez, preconceitos e discriminação são formas primitivas das quais alguns grupos lançam mão para evitar uma suposta ameaça. E a falta de flexibilidade pode trazer um efeito inesperado ao despertar, como numa manifestação sombria, a inevitável violência que a condição humana também traz consigo, mesmo que sob aparente controle.

Outro diretor de cinema, Stanley Kubrick, disse certa vez: “Estou interessado na natureza violenta e brutal do homem porque esse é seu verdadeiro retrato”. Experiências dolorosas da história podem confirmar essa dura frase.  E como todo animal caçado, o protagonista – que no início do filme perseguia alces – torna-se acuado, vítima de covardia e crueldade.

A Caça/ Jagten: Dinamarca/ 2012/ 115 min/ Direção: Thomas VinterbergElenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkoop, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold, Anner Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Ole Dupont