Quem sou eu

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Campinas, São Paulo, Brazil
Psicólogo Clínico Junguiano com formação pela Unicamp, terapia corporal Reichiana, Hipnoterapeuta com formação em Hipnose Ericksoniana com Stephen Gilligan.E outras formações com Ericksonianos: Ernest Rossi, Teresa Robles, Betty Alice Erickson. Formação em Constelação Familiar Sistémica pelo Instituto de Filosofia Prática da Alemanha. Uma rica e inovadora terapia divulgada em toda Europa. Professor de Hipnoterapia, além de ministrar cursos de Auto-conhecimento como Eneagrama da Personalidade e Workshop de Constelação Familiar Sistémica em todo o Brasil. Clínica em Campinas-SP. Rua Pilar do Sul, 173 Chácara da Barra. Campinas-SP F.(19) 997153536

Uma relação de ajuda

Como é bela, intensa e libertadora é a experiência de se aprender a ajudar o outro. É impossível descrever-se a necessidade imensa que têm as pessoas de serem realmente ouvidas, levadas a sério, compreendidas.
A psicologia de nossos dias nos tem, cada vez mais, chamado a atenção para esse aspecto. Bem no cerne de toda psicoterapia permanece esse tipo de relacionamento em que alguém pode falar tudo a seu próprio respeito, como uma criança fala tudo "a sua mãe.
Ninguém pode se desenvolver livremente nesse mundo, sem encontrar uma vida plena, pelo menos...
Aquele que se quiser perceber com clareza deve se abrir a um confidente, escolhido livremente e merecedor de tal confiança.
Ouça todas a conversas desse mundo, tanto entre nações quanto entre casais. São, na maior parte, diálogos entre surdos.
Paul Tournier.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Constelações Familiares em diferentes contextos nacionais.

SIMILARIDADES E DIFERENÇAS INTERNACIONAIS NA ESTRUTURA E NOS PROBLEMAS FAMILIARES

Resultados Preliminares do Método da Constelações Familiares

Apresentado pelo Dr. Berthold Ulsamer no 10º Congresso Mundial  de Terapia Familiar em Dusseldorf, Alemanha

O que são  Constelações Familiares?

O terapeuta alemão Bert Hellinger desenvolveu esse novo tipo de terapia breve, que poderíamos descrever como uma árvore genealógica viva, englobando elementos das esculturas familiares e do psicodrama. Em sua forma e em sua abordagem teórica contudo, esse trabalho é único e novo e tem procedimentos e efeitos surpreendentes. Esse tipo de terapia foi desenvolvido em áreas de língua germânica e, Bert Hellinger originalmente limitou  suas áreas de atuação às regras e experiências que foram descobertas lá.

Esse tipo de terapia contém métodos que são apenas aplicáveis aos países de língua germânica? Será que Hellinger encontrou ordens que são tipicamente alemãs, ou elas são úteis em outros países?

A minha apresentação consiste em 03 partes:

1. Uma breve introdução ao trabalho prático envolvido e seu background .
2. Similaridades e diferenças nacionais com exemplos de vários países.
3. Considerações adicionais: existe uma unidade coletiva? Essa unidade coletiva tem efeito sobre as pessoas e a terra natal?

O método da Constelação Familiar em uso prático

O cliente que deseja fazer uma constelação terá os resultados mais plenos em um grupo. Primeiro é necessário para o cliente ter uma razão específica para colocar sua constelação. O requisito é frequentemente uma pergunta a cerca de certos sentimentos conflitantes (depressão, sentimentos de culpa, etc ) ou a cerca de relações perturbadas na família.

Primeiro o cliente informa ao terapeuta fatos essenciais a cerca da sua família nas últimas 02 ou 03 gerações. Perguntas importantes que precisam ser respondidas são: Quem morreu cedo (antes de 25 anos)? Ocorreram crimes cometidos por membros da família? Por acaso algum membro da família carrega um pesado sentimento de culpa por alguma razão? Os pais tiveram relações amorosas prévias, e elas tiveram consequências dignas de nota (ex: agressões, emigrações, nascimentos fora do casamento, adoção, etc)?

Então o cliente escolhe entre os membros do grupo, pessoas para representar seus pais, irmãos, a si mesmo e outros membros importantes da família. Também são representados membros da família que já morreram. Espontaneamente e centrado, o cliente posiciona cada representante, um em relação ao outro, na área de trabalho assim como sua imagem interna.

Os representantes em seus respectivos lugares, sentem as relações desse sistema e percebem os sentimentos das pessoas que elas representam. Esse efeito é ainda um fenômeno inexplicável.

Durante o trabalho prático com constelações, o terapeuta aprende a confiar nesse fenômeno mais e mais e a deixar-se levar por ele.

O efeito terapêutico das constelações advém de:

* Mostrar e posicionar a imagem interna  da família do cliente com todas as suas tensões e conflitos.
* trazer de volta pessoas importantes que foram esquecidas
* usar “frases de força” que trazem os conflitos à luz e os soluciona.
* Encontrar uma nova posição/ordem para as pessoas envolvidas. As  posições dos representantes serão diferentes no fim da constelação, gerando uma nova imagem interna de solução.

Quando Bert Hellinger desenvolveu as Constelações Familiares  ( nas regiões do mundo de fala germânica ) ele descobriu ordens básicas subjacentes. De fato, apesar de haver exceções a todas as ordens, algumas se repetem com bastante regularidade.

Seis importantes  ordens e princípios

1. Cada membro de uma família pertence a ela igualmente. Cada  família tem um vínculo interno muito forte, a despeito do quão desunida ela pareça quando olhamos de fora. Todos os membros de uma família merecem atenção. Se alguém é expulso, ele será representado por um membro que nascer mais tarde, o qual irá impor a si mesmo um destino similar.
2. A morte precoce de um membro da família tem um forte efeito sobre todo o sistema. Uma inclinação para morrer aparece nos irmãos do morto, devido a suas conexões com ele. Isto é expresso através da frase “ Eu seguirei você”. Se alguém carrega algo assim e mais tarde tem filhos, estes percebem isto e tentam aliviar os pais. Isto é expresso pela frase “Melhor eu do que você”. Esta inclinação para a morte se mostra através da doença e de comportamentos perigosos (esportes radicais, uso de drogas).
3. Crianças tomam sentimentos de outros membros da família. Isto ocorre de dois modos:  ou elas compartilham fortes sentimentos com outros membros da família (elas ajudam a carregar estes sentimentos por assim dizer) , ou elas tomam para si sentimentos não expressos. Por exemplo, uma avó submissa é abusada fisicamente por seu marido. Ela tem então uma neta que por sua vez fica enraivecida com seu marido por nenhuma razão aparente. Na Constelação Familiar torna-se claro que a neta carrega a raiva de sua avó.
4. As crianças são leais aos seus pais (pai e mãe). As crianças quase sempre lidam com seu próprio destino de modo a impedir que elas mesmas tenham um destino melhor que o de seus pais. Devido a esta lealdade elas tendem a repetir o destino destes pais e seus infortúnios.
5. Há uma ordem na família que precisa ser respeitada. A pessoa que vem primeiro, seja um irmão ou um parceiro, toma o primeiro lugar. Os outros seguem esta ordem cronológica. Estes lugares precisam ser respeitados sem julgamento ou  valorização,  apenas devem ser  percebidos como são.
6. Há uma organização espacial básica que é preferível. Há uma ordem básica na qual todos os membros de uma família se sentem bem, desde que se garanta que todas a conexões negativas tenham sido resolvidas. Nesta ordem os pais ficam à frente de seus filhos com o pai ficando no primeiro lugar e a mãe seguindo no sentido horário a ele (quando olhamos de cima). As crianças devem ficar olhando seus pais seguindo o sentido horário de acordo com sua ordem cronológica de nascimento, do mais velho para o mais novo.

Existem traços nacionais típicos nas constelações?

Este trabalho emergiu nos últimos 20 anos na Alemanha. Uma pergunta que surge: se ele é aplicável a outros países também. Esta pergunta foi respondida de modo afirmativo por terapeutas que tem feito Constelações Familiares em paises como Brasil, Eslováquia e França. Eu tenho feito trabalhos na Suiça, Espanha, Itália e Argentina e também  alguns grupos no Japão e Taiwan.

Tem se tornado claro que as ordens e princípios descritos acima se aplicam também a famílias de outras nações e culturas. Quais são as similaridades e diferenças? Eu só posso dizer que elas estão baseadas em experiências pessoais  e não em evidência estatística. Contudo, a experiência é informativa, porque ela mostra as famílias e nações sob uma nova perspectiva.

As consequências da guerra.

Uma grande similaridade existe entre países que estiveram em guerra nas últimas 2 gerações. O resultado da guerra é a morte de soldados jovens. Pais perdem seus filhos, irmãs perdem seus irmãos e crianças nascem, porém nunca conhecerão seus pais porque eles morreram antes que elas nascessem.

Nas constelações alemãs, tem sido demonstrado o quão doloroso é a perda de um irmão para uma irmã. É freqüente que uma inclinação para morrer nasça daí. Os filhos destas irmãs sentem isto, tomam isto para si e eles próprios também desenvolvem esta inclinação para a morte.  Contudo,  a mesma dor ocorre em outras nações, como me foi mostrado na constelação de uma psicoterapeuta  espanhola. A despeito de anos de análise sobre a morte de seu pai, o qual havia morrido antes de seu nascimento na guerra civil espanhola, ela só conseguia imaginá-lo como um fantasma.

Contudo, a morte pode ter vários efeitos. Há tipos de morte que são experimentados coletivamente e de uma forma especialmente traumática. Consequentemente estas mortes são reprimidas na consciência tanto quanto possível e tem um peso muito grande na família. Usualmente as pessoas que tomam parte numa constelação chegam a ter calafrios  quando tais mortes são mencionadas. Na Alemanha estas são as mortes que ocorreram nos campos de concentração nazistas. No Japão, são as mortes que ocorreram em decorrência das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Uma perda é especialmente má quando a família não está certa da ocorrência da morte. Este é,  por exemplo, o caso do destino de vários homens na Argentina que desapareceram e foram sequestrados sob o poder da ditadura – os “desaparecidos”.  Mesmo hoje, após muitos anos, as famílias dos mortos vão regularmente a Buenos Aires para protestar.

Uma constelação na Alemanha me mostrou o quanto é difícil lidar com aqueles que desaparecem. Nos anos 50, um homem cujo irmão estava desaparecido por 10 anos, teve a morte deste irmão declarada legalmente para que se pudesse fazer a partilha da herança. Devido a isto o irmão sobrevivente sentiu uma culpa enorme – quase como se ele fosse um assassino.

Quando nós olhamos para o mundo de hoje para países como a Iugoslávia ou outros países do continente africano, só podemos especular acerca da extensão das tragédias e suas conseqüências para as gerações futuras.

Países não envolvidos em guerras nas gerações recentes.

O que dizer das constelações em países que tem se mantido longe das guerras? Eu passo agora a relatar minhas impressões obtidas num recente seminário de 6 dias com um grupo de pessoas da Suiça. Os primeiros 2 dias foram muito leves. Isto é diferente das constelações na Alemanha, onde as mortes da II  Guerra Mundial aparecem com freqüência – pais, irmãos e crianças que morreram lá. Parecia que circunstâncias favoráveis tinham protegido os suiços de tais tragédias. A intensidade do seminário estava bem baixa.

No terceiro dia, aquele tipo de coisa que as famílias de classe média costumam suprimir veio com muita força à superfície. Houve uma constelação na qual um pastor cometeu adultério com a mulher que iria se tornar a sogra de seu filho. A mulher deu a luz a uma criança (filha dela e do pastor)  mas ela foi considerada filha do marido desta mulher... Em várias famílias veio a luz casos de abuso. Parecia que muitas famílias precisavam de pelo menos uma ovelha negra para carregar os problemas da família.

Aqueles que tomaram parte controlaram suas emoções a um elevado grau e usaram muita energia para fazê-lo. Quando eles não puderam mais manter o controle, os sentimentos suprimidos vieram à tona, dramática e incontrolavelmente.

Outras culturas

Eu agora gostaria de entrar em detalhes sobre minha experiência com cerca de 20 constelações feitas com pessoas do Japão e de Taiwan.

As constelações foram em grande parte similares umas às outras – mais do que entre as constelações alemãs. Os representantes do pai e da mãe mantiveram uma certa distância entre si e algumas vezes ficavam de costas um para o outro. Quando eram virados de modo a ficarem frente-a-frente se sentiram  estranhos um ao outro. Nenhum parecia realmente querer estar com o outro por amor. Muitos casamentos foram arranjados. O resultado: desapontamento recíproco e frustração, dos quais no melhor dos casos gerou uma certa “camaradagem” entre os parceiros em meio a uma situação tão difícil. Uma frase que uma pessoa sentiu ser capaz de trazer alívio foi: “ Você me frustrou e eu a você – nós estamos no mesmo barco.” As mulheres estavam especialmente indispostas a assumirem responsabilidade por terem casado com seus parceiros, pelo menos de início. Elas se viam como vítimas. A força para assumir a responsabilidade só veio quando foi incluída a representante da mãe ao lado de sua filha. Isto foi diferente do que foi observado nas constelações alemãs.

Ao mesmo tempo houveram dinâmicas de transferência de sentimentos de amor na família – quase sempre tendências eróticas entre a mãe e seu filho favorito ou o pai e sua filha favorita. Nas constelações alemãs  sentimentos eróticos muito fortes entre os pais e suas crianças resultam da dinâmica na qual uma criança representa um primeiro amor ou noivo de um dos pais. Em uma das constelações japonesas, a relação erótica entre o pai e a filha foi tão forte que eu estava certo de que o pai teve uma primeira mulher. A filha (a cliente cujo sistema estava sendo constelado) não sabia nada a cerca da existência de tal mulher. Eu finalmente arrisquei um experimento e posicionei uma mulher para representar este primeiro amor do pai. O pai começou a considerar aquilo e então concluiu “esta é minha mãe”.

Se fosse para generalizar minhas percepções então eu diria que as conexões eróticas profundas dessas crianças a seus pais acabam por impedí-la de ter relações realmente satisfatórias mais tarde na vida. Ao invés disso  elas também, por sua vez, buscam uma criança para estabelecer uma relação que realmente preencha o coração delas. Esse padrão é revivido de uma geração para a outra. Mesmo as outras crianças – devido à lealdade ao destino dos pais – raramente têm relações amorosas plenas.

Como nas constelações alemãs, chegou-se a uma ordem básica apropriada no final – os pais lado a lado e as crianças de frente para eles, da mais velha para a mais nova. Contudo, tanto para os pais quanto para as crianças foi necessário deixar bastante espaço entre eles.

Eu presenciei uma fascinante constelação de uma mulher em Taiwan – que era sobre a morte precoce de sua irmã. A irmã morta ainda pertencia à família. Até mesmo um lugar na mesa era sempre reservado para ela. De início a irmã morta foi vista como sendo perigosa e ameaçadora. A irmã sobrevivente estava com medo dela muito mais do que numa situação similar observada em constelações alemãs. Devido a esta experiência, eu suspeitei que a morte precoce tem o efeito “eu seguirei você” também nas outras culturas (apesar delas lidarem com a morte de maneira diferente do que fazemos). Uma irmã ou irmão morre e os outros vivem. Mas os sentimentos de culpa dos sobreviventes não são aliviados pelos atos rituais.

Um terapeuta japonês que já tinha dado seus primeiros passos no trabalho de constelações familiares com seus compatriotas, disse-me que o trabalho tinha servido como uma espécie de escola para ensinar os homens japoneses a entrarem em contato com os seus sentimentos. Eles reprimem completamente os seus próprios sentimentos. Contudo, como representantes acham fácil perceber e expressar sentimentos.

Agora eu gostaria de passar algumas experiências que meus colegas que trabalham com outras nacionalidades contaram-me.

Jacob Schineider trabalhou muitas vezes no Brasil – principalmente com terapeutas que são descendentes de imigrantes europeus. Vários temas vieram à luz em seu trabalho. Um de tais temas é que as consequências da emigração e integração em uma nova terra desempenham uma grande tarefa. Ele cita um exemplo de uma constelação com um padre cujo pai estava morrendo, mas que por alguma razão não podia ainda morrer. Na constelação, foi mostrado que o pai já tinha aceitado sua morte iminente  mas tinha ainda um problema com seu filho. Só quando o filho posicionou seu repr esentante alinhado com os representantes de seu pai e de seu avô e garantiu a eles que honraria e manteria sua herança italiana  foi que o pai sentiu-se aliviado. Logo após a constelação desse filho, o pai morreu em paz tendo o filho a seu lado.

Em muitas constelações o filho permanecia ao lado da mãe e a filha ao lado do pai. As crianças pareciam muito envolvidas no casamento dos pais e inclinadas a tornar-se parceiros afetivos substitutos. Muitos brasileiros vivem próximos à morte sem que a dinâmica exata seja visível. Em nenhuma das constelações houveram crianças prematuramente mortas na geração atual ou anterior – um fato que Schineider achou ímpar. Em quase todas as famílias contudo, haviam mortes por acidentes de tráfego. Os membros da família não tinham muito conhecimento sobre eventos da história familiar, no que diferiam dos alemães.

A situação de brasileiros de classe social inferior e/ou ancestralidade africana ou indígena era muito diferente. Nesses grupos sociais há uma enorme quantidade de incesto e estrutura familiares desoladas, muitos irmãos desconhecidos e pouca segurança social dada pelos pais. Nestes casos parecia haver pouca chance de se obter uma ordem completa na família. De acordo com Schineider era imperativo ver onde existia um lugar relativamente seguro para as crianças que as ajudasse a seguir um destino obrigatoriamente diferente do de seus pais e ao mesmo tempo reconciliá-las com seus pais.

Que relação tem as pessoas com seu próprio país e povo?

O trabalho com constelações revela que há muitas áreas bem definidas de conexão humana. Subjacente a isso, certas ordens e princípios atuam. Um exemplo de ordem importante a respeito das relações amorosas é que parceiros prévios precisam ser reconhecidos  e que cada um tenha seu lugar numa ordem cronológica. Então existe a família cuja ordem já foi mencionada. Há também princípios que atuam em organizações, tal como aquele que diz que pessoas que estão numa organização há mais tempo precisam ter seu tempo de casa respeitado.

Uma área desta conexão humana que está começando a se mostrar  tem a ver com nacionalidade e país de origem. Existe algo coletivo que se refere a uma conexão com a terra natal? Que princípios funcionam aí?

Uma constelação levada a cabo por um colega e eu há poucos anos atrás ampliou largamente meus horizontes. Até aquela época, eu ficava aborrecido pela constante preocupação da mídia com o terceiro Reich. Eu era da opinião de que não deveríamos nos preocupar com isso e, ao invés, olhar para o futuro. Embora eu não fosse pessoalmente afetado por uma história familiar de nazismo, pois meus pais tinham desenvolvido uma aversão a esta ideologia, por suas crenças católicas. Meu pai foi médico durante a guerra e tinha sobrevivido ileso.

Nessa constelação, um homem de 40 anos cujo avô foi um nazista entusiástico, colocou sua família. O homem  e também seu representante estavam excitados e atraídos pela força e poder da ideologia nazista. De maneira a trazer a realidade criminosa do que aconteceu nos bastidores, nós acrescentamos alguns representantes para os perpetradores nazistas e também suas vítimas à constelação. Contudo, o homem ainda achou difícil aceitar a realidade e queria permanecer cegamente atado às idéias sedutoras do nazismo. Somente após um ano ele foi capaz de aceitar a realidade através de uma outra constelação similar. Após essa constelação, eu subitamente senti que eu também estava no mesmo barco que ele e precisava olhar para este passado. Desde então, minhas impressões sobre os alemães e suas relações com o terceiro Reich mudaram. Parece-me agora que um povo inteiro tornou-se culpado da destruição inclemente de judeus e outros grupos raciais. Cada pessoa, quase todos, de uma forma ou de outra carrega uma parte dessa culpa e deste modo colabora com ela. Como Bayohr provou em sua tese de doutorado publicada recentemente, a propriedade total de pelo menos 30000 casas pertencentes a judeus assassinados ou expulsos foi leiloada, somente em Hamburgo. Ele calculou um total de 100000 compradores e estimou que devem ter havido milhões de compradores similiares em todo o país. Isto significa que milhões de alemães obtiveram vantagem às custas da morte dos judeus.

Os filhos e netos da geração da guerra vivem, parece-me, uma das duas alternativas. Ou não aceitam seus pais que estão carregados de  culpa, e assim permanecem sem força ou raízes

(neste caso, quando estão fora de seu país, sentem-se envergonhados de serem alemães) ou eles colocam botas de combate, raspam a cabeça e espancam estrangeiros ou outros grupos raciais (e desse modo aceitam seus pais, e têm a mesma força, mas também a mesma culpa).

Quando observo outras nações européias, sua unidade e laços familiares, parecem-me mais fortes do que na Alemanha. As raízes parecem mais intactas. O único país cuja população parece ter ainda menos raízes é o EUA. Isto pode ser percebido pelas constantes mudanças  de carreira, vida privada e localização de moradia. A terra foi ganha através da destruição ou expulsão da população nativa, os índios americanos. Eu suspeito que um mecanismo similar ao que atua na Alemanha esteja em funcionamento. A culpa dos ancestrais sobrecarrega a relação que suas crianças ou descendentes posteriores tem com eles.

Dissolvendo as conexões com um crime.

As constelações fazem com que um  passo significativo e gerador de cura em um outro nível seja possível. Se o pai ou a mãe cometeu um crime sério, especialmente assassinato, há duas coisas a serem feitas consecutivamente na constelação.

Num primeiro passo, o pai ou a mãe deve ser reconhecido em seu papel de ter dado a vida. A criança então agradece aos pais pela vida que ela recebeu. A seguir ela deve deixar a culpa ou responsabilidade pessoal dos pais com eles. Se alguém se torna um assassino, ele tem de deixar a família na constelação. Então todos se sentem aliviados – não apenas o resto da família, mas o agressor também. Se o agressor não sai, então as crianças que nascerem depois  tomarão a culpa e se tornarão, ou agressores ou vítimas nas gerações futuras.

O passo que leva a um novo nível é possível através da constelação. Uma criança reconhece o pai ou a mãe como aquele de quem recebeu a vida e ao mesmo tempo deixa o agressor manter sua culpa e responsabilidade por suas ações. Então a criança permanece intacta com suas raízes, sem tomar parte na culpa que não é sua. Parece-me que este passo tem de ser feito por cada um, individualmente.

O que é “terra natal”?

Um pequeno episódio que aconteceu em Buenos Aires esclareceu a conexão que as pessoas tem com sua terra natal. Uma mulher argentina de 60 anos, cujos pais alemães emigraram para a Argentina antes dela nascer, contou-me a seguinte história. Ela estava assistindo ao jogo entre Alemanha e Argentina pela copa do mundo de futebol. Quando a Alemanha fez seu primeiro gol, ela espontaneamente caiu no choro – e foi recebida com expressão de estranheza por seus amigos.

Durante as constelações, o tema “terra natal” aparece no “pano de fundo” quando esta terra natal foi perdida. Para clientes, cuja família foi expulsa de um país ou emigrou, é possível posicionar um representante  para  a terra natal, mesmo quando os pais são de diferentes nacionalidades. O representante percebe sentimentos claros em seu papel de terra natal – usualmente sentimentos de paz e força.

A pessoa cuja terra natal é representada,  sente também uma forte relação com a mesma. Usualmente posicionar uma terra natal trás um sentimento de força e alívio, como acontece, por exemplo, com alemães que tiveram que refugiar-se na Prússia Oriental, após a II guerra mundial. Podemos sentir essa forte conexão com a terra ancestral, a qual não se dissolve, mesmo quando se deixa essa terra.

O efeito desta perda é similar ao efeito de perder uma pessoa da família. Se essa perda  reprimida, é como uma ferida interna que permanece aberta, nos tornando fracos. A ferida só pode se curar quando permitimos que a dor tenha um lugar. À terra natal é dado um lugar na constelação, onde ela possa ser reconhecida e apreciada.

Uma situação especialmente difícil,  ocorre com filhos e netos de imigrantes. Alguns rejeitam a terra natal de seus pais – eles querem virar as costas para a velha terra natal e ficar de frente para a nova. Porém, com isso, perdem uma parte importante de suas raízes e força. A frase que é apropriada e tem um bom efeito aqui, pode ser  por exemplo: “eu reconheço você como a terra natal de meus pais e lhe dou um lugar em meu coração”. A criança então, ganha força através do reconhecimento de suas raízes.

O tema terra natal se torna muito significativo quando trabalhamos com refugiados ou estrangeiros que trabalham na Alemanha, cujas crianças querem se integrar à sociedade alemã. O diretor de uma penitenciária para menores,  contou-me a cerca de um grupo de jovens curdos presos que repetidamente, irrompiam em situações de violência abrupta e incontrolável. Os pais, ao contrário, viviam em paz e bem adaptados na Alemanha. Eu conduzi uma constelação nessa prisão, com um jovem que havia sido preso por estupro. Seus pais tinham vindo da Iugoslávia, e eu decidi posicionar representantes para a Iugoslávia e Alemanha. O jovem não deu nenhuma atenção para a terra natal de seus pais. Já o representante da Iugoslávia disse que ele sentia que a chave para a solução estava nele – a terra natal.

Um grande campo de pesquisa está aberto nesse contexto. Uma constelação familiar conduzida por Bert Hellinger, com um judeu alemão, em Frankfurt, fevereiro de 1998, trouxe à luz esse tópico. No começo do terceiro Raich, seus pais mudaram-se para Israel (que ainda era Palestina nesse tempo). O filho nasceu e viveu lá até os 12 anos. Após isto, viveu na Alemanha e considerava-se um alemão. Na constelação foram escolhidos representantes para Israel e Alemanha, e esses foram posicionados. Israel sentiu-se não reconhecido e não visto. Um passo importante até a solução para os pais e o filho veio quando Israel foi trazido e reconhecido. Contudo, o filho judeu sentiu-se desconfortável ao lado de seus pais, alguma coisa ainda parecia estar faltando, ele se sentia como se não tivesse terra natal. Espontaneamente, Hellinger posicionou uma família que estava presente no curso como representantes dos palestinos que foram expulsos de Israel. Ele os posicionou de frente para Israel, e deixou o cliente mudar o lugar de seus representantes, e este se posicionou ao lado dos palestinos expulsos. Aí, ao lado dos expulsos, sentiu-se pertinente e pôde relaxar.

A expulsão é sempre uma injustiça contra aqueles que são expulsos. Os que chegam depois e que tomam a terra nessas condições,  aproveitam-se desta injustiça. O desejo de compensar e expiar aparece então nos filhos e netos dos agressores. Nessa constelação, a necessidade de compensar mostrou-se no fato do filho judeu não aceitar Israel como sua terra, mas  ao contrário tomar para si os sentimentos das vítimas de não possuir uma terra.

O que mais nos conecta?

Simplesmente ser humano nos conecta a todos. A partir desse simples fato, derivam várias ordens e princípios básicos. Usualmente tais ordens tornam-se claras em uma constelação quando uma pessoa torna-se um assassino. Neste caso, tudo o mais que se refira à família ou nação, não desempenha nenhum papel. A culpa permanece forte do mesmo jeito. Ser humano é tudo que é necessário para estabelecer tal conexão. Mesmo para casais, a nacionalidade não tem nenhum valor em relação à conexão criada entre homens e mulheres. Ser apenas humano já fornece uma conexão suficiente.

O que nos conecta? Haverá uma conexão entre todas as coisas vivas? Que ordens funcionam aí?  Poderão tais ordens serem reconhecidas através das constelações? Quando plantas e animais são destruídos sem consideração ou motivo, ou exterminados por lucro, então falta a atenção nescessária,  e a culpa é o resultado. Será que nossos filhos, netos ou bisnetos estão tomando essa culpa? E de que modo? (será que poderíamos encontrar aí as causas para alergias que ocorrem mais e mais frequentemente?) Até este momento, as ordens acima mencionadas estão ainda ocultas e permanecem por descobrir. Mas talvez novas portas se abrirão aqui também, e seremos capazes de ir mais fundo nas profundezas daquilo que pode se mostrar a nós através das constelações.


Traduzido do inglês do texto original extraído do site do Dr Berthold Ulsamer, com permissão do autor.

Tradutor: Décio Fábio de Oliveira Júnior

Caminhos para os casais.

As constelações familiares também funcionam sempre como terapia de casal. Juntamente com os processos entre pais e filhos, a relação entre o homem e a mulher é o coração da Psicoterapia. É bem verdade que, nos chamados “movimentos da alma”, nosso horizonte se estendeu para além da constelação familiar, abrangendo nossa inserção em contextos existenciais mais amplos: a relação entre vivos e mortos e entre agressores e vítimas, a guerra, conflitos de nacionalidades e religiões. Não obstante, as constelações voltam sempre a afetar em seus efeitos a relação conjugal e as relações familiares.

O sucesso do amor entre o homem e a mulher talvez seja o nosso anseio mais profundo, e o fracasso desse amor faz parte de nossos medos e sofrimentos mais profundos. Surpreende-me sempre constatar que a pressão pelo sucesso das constelações nos grupos para casais é muito maior do que nos seminários para pessoas doentes, onde freqüentemente se trata de vida e de morte. No aconselhamento de casais percebe-se também, de modo especial, uma alta expectativa dirigida ao terapeuta ou ao aconselhador. Pois trata-se de decisões sobre o prosseguimento da vida em comum e das conseqüências que acarretam para os parceiros, os filhos e as bases materiais da vida. Trata-se também das mágoas e dos medos associados ao amor, onde somos ainda mais vulneráveis do que no tocante à nossa integridade física.

Na seqüência, abrirei uma perspectiva de conjunto sobre os caminhos da terapia de casal, a partir da experiência com as constelações familiares e do trabalho com os fatores que as condicionam.

Pressupostos para o bom êxito de uma terapia de casal
Os casais procuram ajuda em suas necessidades, mas freqüentemente com idéias que estragarão qualquer ajuda se forem acolhidas pelo terapeuta. O denominador comum dessas idéias é o abandono da responsabilidade pelo sucesso do aconselhamento. Neste particular, a fantasia usual de um ou de ambos os parceiros é que algo se deteriorou em seu relacionamento e que cabe ao terapeuta, como perito e especialista, repará-lo em sua “oficina”. Ou então o casal procura um juiz para resolver o seu caso, alguém que ouça os argumentos das ambas as partes e dê o seu justo veredicto. Alguns buscam no terapeuta, de um modo mais pessoal, uma autoridade cheia de amor que, à maneira de um aliado, um pai ou uma mãe, saiba o que se deve fazer e se imponha ao outro parceiro.

Conflitos de casal assumem freqüentemente a forma de um desacordo em decisões relevantes, onde cada um procura mudar o outro para que se ajuste a sua experiência de vida, a seus desejos e convicções. Como, apesar de intensos esforços, não lhe bastou para isso a força de sua persuasão, ele transmite ao terapeuta, de forma aberta ou velada, o seu real desejo: “Convença-o você, eu não consigo”. Mormente no atendimento individual, quando apenas um dos parceiros procura conselho, transparece este apelo: “Meu parceiro não me dá o que preciso, não me dá atenção, não está disponível para mim. Por favor, dê-me atenção, esteja disponível para mim, seja para mim uma pessoa familiar e confiável”. Assim, o terapeuta é solicitado a preencher uma lacuna para a satisfação das necessidades infantis ou conjugais do cliente.

A montagem da constelação familiar, em sessão de grupo ou na consulta individual, com a preservação da atitude fenomenológica que fundamenta esse trabalho, ajuda o terapeuta a não acolher esses desejos com a intenção de ajudar o casal. Em vez disso, ele deve manter a atitude imprescindível para se alcançar uma solução. Ele entra em sintonia com a alma ou com o campo de relacionamento do casal. Acompanha a vibração do sistema do relacionamento, através da constelação ou de outro método que lhe permita ver e entrar em contato. E faz com que se manifeste, através daquilo que se mostra, algo que seja importante para o casal e o faça avançar. O terapeuta apenas transmite uma indicação ou um conselho essencial, e depois se retira. Não acompanha o processo do casal até a solução. No máximo, comporta-se como um navegador experimentado que, de acordo com o objetivo do casal, indica o caminho ou mesmo assume o comando em seu trecho inicial.

Terapeutas não são mecânicos, juizes, correligionários, pais ou familiares. Um aconselhamento de casal não tem por função modificar a personalidade dos parceiros. Ele permanece sempre incompleto e visa apenas o que é exigido para o próximo passo. Permanecem com o casal o objetivo e o caminho da solução, bem como a responsabilidade e a força para resolver o problema. Assim se preserva a dignidade do casal, bem como a do terapeuta.

O que o aconselhador pode fazer de mais importante pelo casal em sua necessidade, antes mesmo de abrir-lhe uma nova perspectiva sobre sua mútua relação, é interromper os padrões que impedem e destroem o relacionamento. Da mesma forma como recusa acolher as idéias dos parceiros sobre a maneira de ajudá-los, ele interrompe rapidamente os padrões de pensamento e de comportamento que são parte do problema e não trouxeram ajuda até o momento. As constelações familiares, seja em grupo ou em sessões individuais, são uma grande ajuda metódica, já pelo simples fato de que afastam imediatamente os parceiros de discursos estereotipados sobre o relacionamento, levando-os a um olhar conjunto sobre a constelação e, consequentemente, sobre os movimentos mais profundos que fazem progredir o seu relacionamento.

Soluções com vistas às ocorrências dentro do relacionamento do casal
A atenção do aconselhador ou do terapeuta deve se voltar inicialmente para o que ocorreu na história do casal, investigando o que aconteceu por obra do destino ou por responsabilidade pessoal de um ou de ambos os parceiros e os levou aos limites de seu relacionamento. Cito aqui alguns pontos mais importantes, com breves exemplos.

Vínculos anteriores não honrados
Relacionamentos anteriores que criaram vínculo através de um profundo e marcante exercício da sexualidade e foram desfeitos com mágoas ou sentimentos de culpa, pelo menos de um dos parceiros, interferem nas relações ulteriores. Quando o amor, a dor e o preço pago na ligação anterior não são honrados no novo relacionamento, isso não apenas induz filhos dos novos relacionamentos a representar ex-parceiros dos pais que não foram devidamente respeitados, como também impede, muitas vezes, os novos parceiros de assumir sua relação, pelo preço que custou aos parceiros anteriores. O ciúme, por exemplo, é uma forma inconsciente de lealdade a uma ligação anterior do parceiro. Quando um homem abandona sem necessidade sua mulher para viver com uma amante, o ciúme desta freqüentemente destrói a nova ligação. Ela não consegue assumir a relação pelo preço que custou à parceira anterior, e torna-se igual a ela no medo de perder o homem para uma outra mulher.

As ligações anteriores são muitas vezes esquecidas, reprimidas ou não reconhecidas em seus efeitos posteriores. Um homem se queixou de que, depois de dois casamentos e de um terceiro relacionamento mais longo, apaixonara-se de novo, mas a mulher não queria casar-se com ele. Em sua constelação verificou-se que todas as mulheres estavam zangadas com ele, inclusive as duas filhas de seu primeiro matrimônio. Só após um persistente interrogatório ele revelou, com um gesto depreciativo da mão, que aos 17 anos tivera um amor de juventude com intenso envolvimento sexual e que, pouco depois de ter-se separado dessa moça, ela foi internada numa clínica psiquiátrica. Uma representante dessa mulher foi então incluída na constelação. Ela chorou amargamente e todas as outras mulheres tinham lágrimas nos olhos. Somente quanto o homem a encarou como seu amor de juventude, falou-lhe como a sua primeira mulher, mostrou compaixão com seu destino e a abraçou de novo com amor é que ela ficou tranqüila e sorriu. As outras mulheres também abriram sorrisos e a última delas disse: “Agora já posso pensar em casar-me com ele”. E, de fato, os dois se casaram depois.

Ocorrências traumáticas no relacionamento conjugal
Entre as ocorrências que atuam como graves ofensas na relação de um casal e com freqüência acarretam a separação, porque o destino não pode ser carregado em comum, enumeram-se: filhos prematuramente falecidos, abortos provocados, abortos espontâneos em grande número, ausência de filhos, sexualidade deficiente, doenças graves, acidentes, culpa real ou imaginária em relação ao parceiro ou a outras pessoas, ameaça às bases da existência e graves ameaças à integridade do corpo ou da alma. Com a ajuda de uma constelação é possível conjurar forças que possibilitem aos parceiros a superação conjunta do evento traumático, reforçando o vínculo ou então levando-os a aceitar o fato de que já não podem assumir em comum o destino ou a responsabilidade.

Uma mulher procurou um grupo porque buscava um caminho para dissolver o “profundo mutismo” que havia entre ela e o marido. A constelação de sua família atual mostrou realmente que havia um abismo entre o casal, o que fez com que a atenção se desviasse imediatamente dos filhos para os pais. Perguntada sobre que fatores de separação houvera entre ela e o marido, a mulher logo disse que tinha havido ainda uma quarta criança, bem mais nova, fruto de uma noitada, que eles decidiram abortar. Foi colocado um representante para essa criança, que sentou no chão, entre os pais. Os representantes dos pais olharam imediatamente para a criança, colocaram-se juntos atrás dela, puseram espontaneamente as mãos sobre sua cabeça, olhavam alternadamente para a criança e entre si e deixaram silenciosamente correr suas lágrimas. A mulher que colocara sua família estava sentada na roda e também chorava em silêncio. Os representantes dos filhos deram um passo para trás, afastando-se dos pais, e simplesmente ficaram olhando. Terminada a constelação, a mulher agradeceu e disse que ela tinha salvado a sua vida. Admirado, o terapeuta lhe perguntou o que ela queria dizer com isso. Ela respondeu: “Pouco depois do aborto apanhei um grave reumatismo e imediatamente reconheci que esta era a minha forma de expiar pelo aborto”. No dia seguinte, ela contou que, na noite do próprio dia da constelação, seu marido regressou de uma longa viagem de negócios e ela lhe contou o que se passara. Então ele se sentou no sofá, chorou muito e disse: “Eu sempre me senti muito culpado”. E passaram toda a noite conversando.

Num grupo de constelação familiar, um homem manifestou, como seu problema, que sua mulher se esquivava dele e tratava sem amor a filha e um filho mongolóide, que estava internado num asilo. Na constelação, a mulher realmente se mostrou isolada e totalmente fria. Os três filhos – pois tinha havido um outro filho mongolóide, o mais novo, falecido aos quatro anos de idade– se distanciaram dos pais, afastando-se, e a filha se colocou entre a mãe e os irmãos, como se quisesse protegê-los. O terapeuta perguntou então ao homem se tinha havido recriminações pelos filhos que nasceram mongolóides. O homem engoliu em seco e disse: “Sim, meus pais fizeram graves acusações à minha mulher, dizendo que ela trouxera da família uma péssima herança genética e jamais deveria ter-se casado comigo. E eu defendi meus pais e suas acusações”. Então o terapeuta colocou esse homem diante da representante de sua mulher e pediu aos dois que se olhassem demoradamente, realmente encarando-se. Isso entretanto era visivelmente difícil para eles. Finalmente o homem conseguiu dizer à mulher: “Sinto muito. Coloquei em você todo o peso do destino de nossos filhos doentes. Juntamente com meus pais, responsabilizei você e sua família e a magoei muito. Se você ainda puder aceitar isto, estou disposto agora a retirar minha acusação e a carregar com responsabilidade e amor, junto com você, o destino de nossos filhos”. – Então a representante de sua mulher se lançou em seus braços e chorou por longo tempo. Em seguida ela o encarou amorosamente, caminhou para os filhos e os abraçou. Quando o pai se aproximou, por sua vez, e juntamente com sua mulher abraçou os filhos, eles finalmente aceitaram a proximidade da mãe.

Na terapia de casal e nas constelações que revelam a dinâmica dos relacionamentos verificamos portanto quais são os eventos que atuam como fatores de separação num relacionamento e que caminho se oferece ao casal no sentido de carregar algo em comum, restaurar a ligação, assumir a dor da perda e deixar que o passado seja passado. E verificamos como um casal pode lidar com tais eventos. Mesmo quando for inevitável a separação, os acontecimentos que separam podem, passado algum tempo, descansar em paz e a relação pode terminar com amor e dignidade.

A ordem confiável na família

Freqüentemente o amor entre o homem e a mulher é impedido por não serem reconhecidas as condições para o crescimento da relação. Neste caso, a constelação é útil para encontrar as formas de restabelecer a ordem no sistema.

Por exemplo, uma das condições mais importantes para o bom êxito do amor é que, no processo de dar e tomar, se volte sempre a alcançar uma compensação positiva. Quem toma, também deve dar; se ama, deveria dar um pouco mais do que recebeu. Assim, através do amor, a troca recíproca é estimulada no sentido de um alto investimento de vida. A isto chamamos felicidade. Mas essa felicidade é também difícil. Ela exige muita coisa dos parceiros, que então dificilmente podem separar-se. Às vezes, alguém já não consegue sustentar a troca crescente do dar e tomar, e talvez se sinta atraído por um outro parceiro, com quem possa trocar menos. Ou então minimiza com críticas o que recebe, para sentir-se menos obrigado.

A compensação entre o dar e o tomar funciona nos relacionamentos como uma lei natural. Se o desequilíbrio cresce demais, a relação não consegue suportá-lo. Se, por exemplo, a mulher custeou para o marido uma formação superior, sustentando-o, é freqüente que ele a deixe depois, porque a compensação se torna muito grande e difícil para ele. Quando um dos parceiros traz um grande peso em bens, relacionamentos anteriores, filhos, destino, caminho de vida, e o outro não pode contrapor-lhe nada de equivalente, isso pode destruir o relacionamento depois de algum tempo. A gratidão e o amor podem aliviar parte do desequilíbrio, mas muitas vezes é difícil.

Também as ofensas exigem compensação. Enquanto o parceiro ofendido quiser permanecer inocente não haverá possibilidade de compensação. Se, inversamente, o revide for tão grande que cause ao outro um sofrimento ainda maior, a relação entrará num círculo vicioso de brigas e ofensas recíprocas, que só conhecerá pausas pelo esgotamento e geralmente sobreviverá a uma separação. A solução, neste caso, é buscar a compensação através de uma zanga ou de uma exigência menos ofensiva, que respeite o parceiro e o convide a retomar o amor, dando-lhe a oportunidade de reparar algo amorosamente e de dar algo bom de um modo diferente.

Citarei aqui, de modo sucinto, outras formas das ordens do amor. A primeira é a primazia da relação do casal sobre o cuidado dos filhos – pois o cuidado dos pais pelos filhos aumenta com o amor recíproco entre os pais. Se este é sacrificado em benefício do cuidado com os filhos, isto separa os pais e os filhos não o aceitam, porque os pais pagam o preço em sua relação.

Já nos sistemas familiares complexos, onde existem filhos de relações anteriores, a ordem correta confere primazia ao cuidado pelos filhos dessas relações. Contudo, no que toca à relação entre o homem e a mulher, prevalece o novo sistema.

Naturalmente resultam conseqüências de peso para uma relação e para os filhos quando um parceiro que tem um filho de uma relação anterior silencia este fato e não provê a criança. Para além da ignorância do fato, isso pesa também sobre o relacionamento seguinte e os filhos subsequentes.

Obviamente, é muito importante que a relação do casal seja confiável como relação entre um homem e uma mulher. Por outras palavras, o homem deve ser e permanecer homem e a mulher deve ser e permanecer mulher. Os parceiros devem sentir necessidade e confiança mútua, sobretudo no que se refere à sexualidade e ao provimento das condições de vida.

Devemos considerar também outra ordem do relacionamento, fruto da percepção que Bert Hellinger exprime com esta frase: “A mulher deve seguir o homem (em sua família, em seu país, em sua cultura) e o homem deve servir ao feminino”.

Na terapia de casal devemos, portanto, ter em vista o que está em desequilíbrio na relação e como é possível restaurar uma troca positiva e aberta para o futuro, ou então conseguir uma compensação que possibilite uma boa separação. Verificamos, ainda, o que precisa ficar em ordem na relação, de modo que ela volte a ser vivida de uma forma confiável.

Soluções com vistas a acontecimentos e destinos nas famílias de origem
Talvez o aspecto mais importante na terapia conjugal seja a percepção dos envolvimentos dos parceiros nas respectivas famílias de origem. Esta é freqüentemente a zona menos perceptível para os parceiros e é aí que as constelações lhes fornecem o maior esclarecimento. De fato, a terapia de casal sempre levou em conta a interferência de necessidades infantis insatisfeitas e de traumas de infância. Entretanto, foi somente através das constelações familiares que foram percebidos, em toda a sua amplitude e em seus efeitos trágicos, os envolvimentos profundos dos parceiros em destinos que abrangem várias gerações e em temas familiares não resolvidos. A maioria dos problemas sérios de relacionamento nada tem a ver com o próprio casal e com seu amor recíproco. Cegamente absorvidos em conflitos não resolvidos, e muitas vezes inconscientes, de antepassados das famílias de origem, os parceiros carecem de compreensão e sensibilidade em seu relacionamento e projetam ou procuram resolver um no outro o que malogrou em seus antepassados por força do destino ou por responsabilidade pessoal.

Comportamento cego de ambos os parceiros com respeito a destinos e eventos anteriores
Num grupo para casais, um deles constelou o seu sistema atual. A mulher trouxera para o novo casamento um filho de um matrimônio anterior. Na nova relação, embora recente, já havia muita briga. Na constelação evidenciou-se que a mulher tinha muito pouca consideração pelo ex-marido e uma grande esperança de que o novo marido viesse a ser um pai melhor para a filha dela. A relação entre a mãe e a filha era muito estreita, e o marido atual se sentia estranho e olhava para fora. Nessa constelação, a filha assumiu e honrou seu pai. O marido atual ficou aliviado e encontrou um lugar ao lado de sua esposa. Parecia que a constelação tinha funcionado e trazido solução.

Entretanto, à noite o marido procurou o terapeuta. Disse que se sentia muito mal e que também não revelara o mais importante: que tinham sérios problemas no relacionamento sexual, onde ela fazia muitas exigências que ele não podia satisfazer. No dia seguinte, o terapeuta fez com que o marido montasse a constelação de seu sistema de origem. Ela evidenciou que o homem tinha uma estreita ligação com sua mãe e assumia junto dela o lugar do pai. O representante do pai olhava para fora do sistema, totalmente fascinado por algo terrível. Averiguou-se que, no decurso de uma longa fuga da prisão, que durou três anos, ele fuzilou um homem que lhe barrara o caminho. Na compreensão desse evento, que foi muito comovente para o casal, evidenciou-se que o marido não ousava aceitar o amor de uma mulher nem gerar um filho, porque o regresso do pai ao lar e seu conseqüente casamento com sua mãe só foram possíveis através do assassinato de uma pessoa. Este era um importante quadro de fundo para os problemas sexuais por parte do marido. Um cartão postal enviado pelo casal, nas férias que se seguiram, dava a entender que algo se resolvera em sua relação.

Mas esta história ainda teve prosseguimento. Algum tempo depois, a mulher ligou para o terapeuta. Disse que houvera muitas melhoras no casamento e que o marido mudara muito e estava muito afeiçoado a ela. Mas ela se sentia de novo intranqüila e insatisfeita quanto à relação sexual. Então, através de duas breves ligações telefônicas, entrou em contato com uma avó que, depois da morte de seu primeiro marido, por quem tinha muito amor, tivera uma vida muito infeliz e uma relação muito insatisfatória com os homens que se seguiram. Percebendo sua estreita ligação com essa avó, a mulher conseguiu acolhê-la amorosamente em seu destino e desidentificar-se dela. Num outro cartão de férias comunicou que agora estava muito satisfeita e que estava bem com o marido.

A dupla transferência
Um fenômeno freqüente em conflitos sérios entre parceiros aparece no que Bert Hellinger chamou de “dupla transferência”. Se uma injustiça cometida entre um homem e uma mulher, numa geração anterior, não teve a devida compensação, esta é transferida para seus descendentes. Ela atinge então pessoas totalmente inocentes, acrescentando uma nova injustiça à primeira. Assim, por exemplo, uma mulher “bondosa” e compassiva tolera, por anos a fio, os casos públicos de seu marido que muito a magoam, mas sua filha assume a vingança em nome da mãe. Entretanto, como também ama e protege o pai, vinga-se em seu marido, molestando-o abertamente com um namoro. A transferência no sujeito significa aqui que ela age em lugar de sua mãe. E a transferência no objeto significa que a compensação não se dirige à pessoa do pai, mas ao marido. Embora inocente, este é chamado a pagar por uma injustiça na família de sua mulher. Ao mesmo tempo a filha torna-se semelhante ao pai em seu comportamento, não agindo melhor do que ele.

Certa mulher estava sempre muito irritada com seu marido e, como ela própria notou, sem razão. Na constelação, ficou claro que ela representava uma tia que, como primeira filha de mãe solteira, fora totalmente excluída da família por seu avô. Em substituição a essa tia, a mulher assumiu a raiva pela injustiça mas, poupando o avô, dirigiu-a contra o próprio marido. Ao mesmo tempo, e sem consciência do fato, deu à sua filha mais velha o mesmo nome da tia. A história somente lhe foi revelada por uma conversa telefônica posterior com o próprio pai.

Uma outra mulher, que era bonita mas tinha uma fisionomia muito carregada, era seguidamente abandonada pelos homens. Não dava a impressão de ser agressiva, mas comportava-se como uma vingadora cautelosa, aguardando o momento certo para o golpe. As informações sobre sua família revelaram que sua mãe, aos doze anos de idade, fora estuprada e quase morta. Na constelação a mulher experimentou o medo pânico de sua mãe e, assumindo o papel de sua representante diante do agressor, bradou-lhe no rosto: “Eu mato você!” Foi somente o reconhecimento desse agressor como primeiro homem da mãe, e uma profunda reverência da mãe e da filha diante do destino que uniu a mãe e seu agressor como homem e mulher num evento terrível e sem saída, que trouxe alívio e luz ao semblante da jovem mulher. Então ela pôde entender seus impulsos de vingança diante dos homens, e em que medida nisso ela se ligava à mãe e ao mesmo tempo se tornava semelhante ao agressor.

A fascinação de um parceiro pela morte

Uma dinâmica usual que separa os parceiros resulta do fato de que um deles, de algum modo, está mais perto da morte do que da vida. Essa pessoa não está realmente presente, e toda a luta do outro para retê-lo apenas agrava o conflito. Assim, certa mulher ficou muito tocada quando, numa constelação, pôde ver em que direção olhava o ex-marido do qual acabara de separar-se como sua quinta mulher (ele vivia trocando de mulheres). Na constelação, seu representante não olhava para nenhuma de suas mulheres e namoradas, cujas representantes tinham sido colocadas ali, mas apenas para uma antiga noiva que, pouco antes do casamento, morreu num acidente. Ele queria seguir essa mulher na morte, como se só assim pudesse consumar-se esse grande amor.

Um homem muito bem sucedido e, não obstante, solitário, ficou muito assustado quando se revelou em sua constelação que ele, no meio de todos seus casos, levava consigo esta frase: “Antes te amar do que morrer”.

Sentia-se atraído por sua mãe, que morrera muito cedo, e na constelação só encontrou paz junto dela. É como se tivesse sentido toda a sua vida através dessa atração por sua mãe, e tivesse se defendido dela através desses amores. E talvez também tivesse procurado encontrar neles sua mãe viva, naturalmente não a encontrando.

Nas camadas profundas da alma de homens violentos e mulheres agressivas manifesta-se, às vezes, um grande desespero, o medo de perder o parceiro pela morte e uma luta impotente contra isso. Muitos casamentos fracassaram no pós-guerra porque o homem não conseguia aceitar o fato de ter sobrevivido, em face dos numerosos companheiros mortos com quem diariamente lutara pela sobrevivência. Mesmo voltando para casa, ele desejava, no íntimo, juntar-se aos companheiros mortos. Abala-nos sempre perceber, no decurso de constelações, em quantos conflitos de casal existe, bem no fundo, uma questão de vida e de morte, e quanto de emoção e de entendimento mútuo se libera quando isso vem à luz e, na medida do possível, pode ser resolvido.

Gostaria de mencionar aqui, muito rapidamente, uma dinâmica que se revela cada vez mais, logo que ficamos atentos a ela. Dois parceiros se encontram, em muitos casos, devido à existência de destinos semelhantes em suas famílias de origem. Quando, por exemplo, há um filho presumido na família de um dos parceiros, o mesmo ocorre, com freqüência, na família do outro, muitas vezes com diferença de uma geração. Se numa das famílias os homens têm uma posição desfavorável, isso também acontece freqüentemente na outra família. Se uma das famílias sofre os efeitos de destinos envolvendo criminosos e vítimas, o mesmo ocorre geralmente na outra família. Parece que instintivamente percebemos no parceiro os destinos de sua família, no que têm em comum com os destinos da nossa. São bem diferentes, entretanto, os padrões de lidar com tais destinos. Assim, com freqüência as pessoas se completam pelo lado funesto: por exemplo, um dos parceiros se identifica com as vítimas de um avô no regime nazista, enquanto o outro se envolve com um avô que pertenceu às forças de choque do regime.

Quando ambos os parceiros comparecem a um trabalho para casais, em grupo ou num aconselhamento privado, as conexões que vêm à luz proporcionam muita compreensão recíproca e uma visão do quadro de fundo das dificuldades de relacionamento. Também para o terapeuta é emocionante presenciar quando o auto reconhecimento de um casal envolvido nos destinos familiares se manifesta de uma forma que reforça seu vínculo no amor.

O movimento amoroso interrompido

Uma dinâmica importante nos conflitos de casal se mostra quando há um movimento precocemente interrompido no amor dirigido à mãe. Isto não constitui, em sua origem, um conflito sistêmico, e só se torna tal quando é transferido para a relação conjugal. Uma interrupção no movimento amoroso origina-se na criança pequena quando ela é separada da mãe nos primeiros anos de vida, geralmente por força do destino, por exemplo, porque a mãe teve de ficar hospitalizada por várias semanas depois do nascimento, ou porque a criança de um ano precisou ser internada para uma operação, ou porque a mãe morreu quando a criança tinha três anos. Trata-se portanto de uma separação prematura que sofre a criança, principalmente em relação à sua mãe, às vezes também ao seu pai. O efeito que isso terá sobre a vida posterior da criança, e principalmente sobre os seus relacionamentos, será tanto maior quanto mais existencialmente ameaçada esteve a criança e quanto mais ela teve de abandonar a esperança de recuperar a proximidade da mãe.

Quando um homem ou uma mulher olha para o seu parceiro, sente o desejo de amá-lo e de ser amado por ele. Entretanto, ao se aproximar do parceiro, surge na pessoa, como num reflexo, o antigo medo da criança, de perder sua mãe e de não poder mais confiar nela, junto com uma grande dor e uma profunda resignação. Esse padrão é transferido inconscientemente ao parceiro e uma luz vermelha se acende: “Não quero sofrer isso de novo. Prefiro me retirar logo disso”. Entretanto, como todo mundo gosta de amar e de ser amado, a pessoa volta a tomar um impulso e a procurar o parceiro. Mas, logo que se chega ao amor, emerge novamente o medo da criança pequena e a pessoa torna a recuar. Isto foi descrito por Bert Hellinger como o círculo vicioso da neurose. A maior parte dos chamados conflitos de proximidade e distância têm assim sua origem num movimento precocemente interrompido em direção à mãe. Esses conflitos não podem ser resolvidos na própria relação conjugal, mas exigem que a criança presente no adulto, numa experiência retroativa, seja acolhida com força e amor por sua mãe ou por um terapeuta que a substitua. Isso exige uma experiência de transe ou uma vivência corporal em que o adulto se sinta de novo como uma criança pequena e que, como uma criança pequena, experimente um abraço que lhe permita atravessar a dor e recuperar a confiança em sua mãe.

Quando, na terapia de casal, trazemos assim à luz, de uma forma liberadora, fatos passados, isso ajuda o “amor à segunda vista” (Bert Hellinger), a saber, as dimensões mais profundas de um amor dotado de visão. Representa uma ajuda para o futuro e para um amor bem sucedido do casal (mesmo que, no caso de uma separação, apenas para o tempo em que ainda havia amor). Uma compreensão retroativa só tem sentido na medida em que abre para o casal novos passos para o futuro, no sentido do título de um dos livros de Bert Hellinger: “Vamos em frente”.

A dimensão espiritual da terapia de casal

Quando as constelações na terapia de casal são bem sucedidas, elas abrem para os parceiros um caminho espiritual para o bom êxito de seu relacionamento. O “espiritual” é entendido aqui num sentido mais amplo, como uma espécie de purificação do relacionamento, e como uma forma de inserir-se no espaço maior da alma, que transcende o próprio relacionamento. Também neste particular apontarei brevemente os pontos essenciais.

A fila dos antepassados

A vida nos vem através de nossos pais, mas não se origina neles. Ela vem de longe. Às vezes, podemos colocar os parceiros de frente um para o outro (e isso costuma ser muito útil quando há problemas sexuais) e, atrás de cada um deles, uma fila de antepassados. Isso permite perceber a força da vida que vem de longe e é transmitida através dos antepassados, e também a alegria de viver. Esta conexão, através dos antepassados, com a ampla totalidade da vida é um ato religioso fundamental. Ao realizá-lo nesse espírito, cada um pode sentir, em si mesmo e no parceiro, o que isso proporciona em termos de afluxo de força, de movimento amoroso para o parceiro e de uma união aberta, no sentido de uma vida mais ampla.

O ato de encarar-se

Só conseguimos manter muitos conflitos de relacionamento porque realmente não nos encaramos. Os sentimentos que não podemos manter quando nos olhamos nos olhos não contribuem para o bom êxito do relacionamento. Eles nos mantêm presos a todo tipo de fantasias e de padrões antigos, que nada têm a ver com a relação conjugal. É realmente um exercício espiritual diário desprender-se continuamente desses sentimentos e pensamentos que não conseguimos manter de olhos abertos.

O respeito pelos mais antigos e a primazia do novo

Para o êxito do amor existe um processo indispensável, que tem a ver com o respeito pelos mais antigos e com o progresso. O primeiro passo é este: “Respeito os meus pais e a minha família, e tudo o que vale nessa família”. O segundo passo diz: “Respeito os teus pais e a tua família, e tudo o que vale em tua família”. O terceiro passo costuma ser doloroso. Ambos os parceiros olham para seus pais e lhes dizem interiormente: “Preciso deixar vocês e me desprender também de muita coisa que era importante para vocês. Preciso deixar o que está em oposição ao que traz o meu parceiro em termos de hábitos, normas, valores, fé ou cultura, e o que me impede de dar prioridade à minha união atual e à minha família atual”. E, num quarto passo, os parceiros se encaram e dizem um ao outro: “Vamos fazer algo de novo a partir do antigo que trouxemos, algo que acolha e transcenda o que ambos trouxemos, algo de novo que una e que leve ao futuro, e no qual possamos crescer juntos como pessoas autônomas.”

Da necessidade de partilhar

Muitos conflitos de casal resultam do desejo de que o parceiro satisfaça as nossas necessidades infantis, como se ele tivesse de dar-nos o que deixamos de receber de nossos pais. Isto, porém, sobrecarrega o parceiro, principalmente quando veicula esta mensagem: “Sem você não posso viver!” A solução espiritual reside em ficar em paz com os próprios pais e em dizer ao parceiro: “O que recebi de meus pais basta, e isso eu partilho de boa vontade com você. E o que você traz dos seus pais basta, e eu me alegro se você o repartir comigo. E o que ainda nos falta nós conseguiremos por nossas próprias forças”. Quando este nível adulto de partilhar e de comunicar-se tem força, podemos nos permitir, às vezes, acessos de necessidades infantis, como em situações de estresse e doença. O parceiro estará presente por algum tempo, suportando e dando, até que melhoremos.

Liberdade através do relacionamento
Aqui direi algo de ousado. Às vezes pensamos que, se estivéssemos sós, seríamos mais livres em nosso desenvolvimento e em nossas possibilidades. A realidade é o inverso. A evolução nos ensina que a associação dos parceiros (não a uniformização associada a uma compulsão totalitária) diferencia cada indivíduo, torna-o mais variável em seu pensar e agir do que quando fica confinado à própria individualidade. Quando, com vistas ao parceiro, temos de nos defrontar com coisas novas e procurar novas formas de equilíbrio interno e externo, isto nos libera um pouco dos próprios esforços, que são freqüentemente cegos, em nosso interior. Ganhamos em variedade e equilíbrio, que são pressupostos imprescindíveis para um certo grau de liberdade. Talvez a melhor maneira de descrever a realização espiritual e simultaneamente a realização sistêmica básica na relação do casal seja utilizar, num sentido um pouco mais amplo, as palavras de Bert Hellinger: “Eu amo você e amo aquilo que suporta, dirige e desenvolve a você e a mim”.

Jakob Robert Schneider

Palestra de Hellinger em SP.

Muita gente julga que o amor tem o poder de superar tudo, que é preciso apenas amar bastante e tudo ficará bem. Contudo, a experiência mostra que isto não é verdade. Muitos pais são forçados a experimentar que, apesar do amor que dão a seus filhos, estes não se desenvolvem como eles esperavam. São forçados a ver seus filhos adoecerem, se drogarem ou suicidarem, apesar de todo o amor que lhes dão. Para que o amor dê certo, é preciso que exista alguma outra coisa ao lado dele. É necessário que haja o conhecimento e o reconhecimento de uma ordem oculta do amor.

Ordem e amor

O amor preenche o que a ordem abarca.
O amor é a água, a ordem é o jarro.

A ordem ajunta,
o amor flui.
Ordem e amor atuam juntos.

Como uma linda canção obedece às harmonias,
assim o amor obedece à ordem.
Assim como o ouvido dificilmente se acostuma
às dissonâncias, mesmo quando são explicadas,
assim também nossa alma dificilmente se acostuma
ao amor sem ordem.

Muita gente trata essa ordem
como se ela fosse uma opinião
que se pode ter ou mudar à vontade.

Contudo, ela nos preexiste.
Ela atua, mesmo que não a entendamos.
Não é inventada, mas encontrada.
É por seus efeitos que a descobrimos,
Como descobrimos o sentido e a alma.

Muitas dessas ordens são ocultas. Não podemos sondá-las. Elas atuam nas profundezas da alma, e freqüentemente as encobrimos com pensamentos, objeções, desejos e medos. É preciso tocar no fundo da alma para vivenciar as ordens do amor.

Tomar a vida

Direi primeiro alguma coisa sobre as ordens do amor entre pais e filhos e, do ponto de vista da criança, isto é, do filho para com seus pais. Aqui menciono algumas verdades banais. Elas são tão óbvias que eu quase me envergonho de citá-las. Não obstante, são freqüentemente esquecidas.

O primeiro ponto é que os pais, ao darem a vida, dão à criança, nesse mais profundo ato humano, tudo o que possuem. A isso eles nada podem acrescentar, disso nada podem tirar. Na consumação do amor, o pai e a mãe entregam a totalidade do que possuem. Pertence portanto à ordem do amor que o filho tome a vida tal como a recebe de seus pais. Dela, o filho nada pode excluir, nem desejar que não exista. A ela, também, nada pode acrescentar. O filho é os seus pais. Portanto, pertence à ordem do amor para um filho, em primeiro lugar, que ele diga sim a seus pais como eles são -- sem qualquer outro desejo e sem nenhum medo. Só assim cada um recebe a vida: através dos seus pais, da forma como eles são.

Esse ato de tomar a vida é uma realização muito profunda. Ele consiste em assumir minha vida e meu destino, tal como me foi dado através de meus pais. Com os limites que me são impostos. Com as possibilidades que me são concedidas. Com o emaranhamento nos destinos e na culpa dessa família, no que houver nela de leve e de pesado, seja o que for.

Essa aceitação da vida é um ato religioso. É um ato de despojamento, uma renúncia a qualquer exigência que ultrapasse o que me foi transmitido através de meus pais. Essa aceitação vai muito além dos pais. Por esta razão, não posso, nesse ato, considerar apenas os meus pais. Preciso olhar para além deles, para o espaço distante de onde se origina a vida e me curvar diante de seu mistério. No ato de tomar os meus pais, digo sim a esse mistério e me ajusto a ele.

O efeito desse ato pode ser comprovado na própria alma. Imaginem-se curvando-se profundamente diante de seus pais e dizendo-lhes:"Eu tomo esta vida pelo preço que custou a vocês e que custa a mim. Eu tomo esta vida com tudo o que lhe pertence, com seus limites e oportunidades". Nesse exato momento, o coração se expande. Quem consegue realizar esse ato, fica bem consigo, sente-se inteiro.

Como contraprova, pode-se igualmente imaginar o efeito da atitude oposta, quando uma pessoa diz: "Eu gostaria de ter outros pais. Não os suporto como eles são." Que atrevimento! Quem fala assim, sente-se vazio e pobre, não pode estar em paz consigo mesmo.

Algumas pessoas acreditam que, se aceitarem plenamente seus pais, algo de mau poderá infiltrar-se nelas. Assim, não se expõem à totalidade da vida. Com isto, contudo, perdem também o que é bom. Quem assume seus pais, como eles são, assume a plenitude da vida, como ela é.

E algo que é próprio

Mas aqui existe ainda um mistério que não posso justificar. Com efeito, cada um experimenta que também tem em si algo de único, algo que é inteiramente próprio, irrepetível, e não pode ser derivado de seus pais. Isso também ele precisa assumir. Pode ser algo de leve ou de pesado, algo de bom ou de mau. Isto não podemos julgar.

A pessoa que encara o mundo e sua própria vida com olhos desimpedidos pode ver que tudo o que ela faz obedece a uma ordem. Tudo o que ela faz ou deixa de fazer, tudo o que ela apoia ou combate, ela o realiza porque foi encarregada de um serviço que ela própria não entende. Aquele que se entrega a tal serviço, experimenta-o como uma tarefa ou como um chamado, que não se baseia nos próprios méritos nem na própria culpa (quando for algo de pesado ou cruel). Ele foi simplesmente tomado a serviço.

Quando contemplamos o mundo desta maneira, cessam as diferenças habituais. Costumo descrever isto com o dito seguinte:

O mesmo

A brisa sopra e sussurra,
A tempestade varre e se enfurece,
E no entanto
é o mesmo vento,
o mesmo canto.

A mesma água
nos tira a sede e nos afoga,
nos carrega e nos sepulta.

Todo ser vivo se desgasta,
se mantém vivo e se aniquila.
Em ambos os casos,
a mesma força o impele.

Ela é que conta.

A quem servem então as diferenças?

Falei até aqui sobre a ordem fundamental da vida. Foi-nos concedido termos pais e sermos filhos. E temos também algo de próprio.

Aceitar tudo o mais que nossos pais nos dão

Na verdade, os pais não dão aos filhos apenas a vida. Eles nos dão também outras coisas: alimentam-nos, educam-nos, cuidam de nós e assim por diante. Convém à criança que ela tome tudo isso, da forma como o recebe. Quando a criança o aceita de bom grado, costuma bastar. Existem exceções, que todos conhecemos, mas via de regra é suficiente. Pode não ser sempre o que desejamos, mas é o bastante.

Nesse particular, pertence à ordem que o filho diga a seus pais: "Eu recebi muito. Sei que é muito, é o bastante. Eu o tomo com amor". Então ele se sente pleno e rico, seja qual for a situação. Então ele acrescenta: "o resto, eu mesmo faço". Isto também é um belo pensamento. Finalmente, o filho ainda pode dizer aos pais: "E agora eu os deixo em paz". O efeito destas frases vai muito fundo: agora o filho tem seus pais e os pais têm o filho. Pais e filho estão simultaneamente separados e felizes. Os pais concluíram sua obra e a criança está livre para viver sua vida, com respeito pelos seus pais mas sem dependência.

Imaginem agora a situação contrária, quando o filho diz aos pais: "O que vocês me deram foi errado e foi muito pouco. Vocês ainda estão me devendo muito". O que esse filho tem de seus pais? Nada. E o que têm dele os pais? Igualmente nada. Esse filho não consegue soltar-se de seus pais. Sua censura e sua reivindicação o vinculam a eles, mas de uma forma tal que ele não os tem. Ele se sente vazio, pequeno e fraco.

Esta seria a segunda lei do amor entre filhos e pais.

O tamanho de criança

Existe algo que os pais adquirem por mérito pessoal. Se a mãe, por exemplo, tem um dom especial - suponhamos que ela seja pintora e pinte quadros maravilhosos - então isso pertence a ela e não ao filho. Este não pode reivindicar ser também um bom pintor, a não ser que o tenha merecido por dotação própria e dedicação pessoal.

A mesma coisa vale para a riqueza dos pais. O filho não tem o direito de reivindicá-la, como é o caso da herança. O que ele vier a receber será puro presente.

Isto vale ainda para a culpa pessoal dos pais. Também esta pertence exclusivamente a eles. Com freqüência, uma criança presume, por amor, tomar sobre si essa culpa, carregá-la em nome dos pais. Também isto vai contra a ordem. A criança se arroga um direito que não lhe compete. Quando os filhos querem expiar pelos pais, estão se julgando superiores a eles. Os pais passam a ser tratados como crianças, cuidadas por seus próprios filhos, que assumem o papel de pais.

Uma senhora, que recentemente participou de um grupo meu, tinha um pai cego e uma mãe surda. Os dois se completavam bem, mas a filha achava que devia cuidar deles. Quando montei a constelação de sua família, ela se comportou como se fosse ela a pessoa grande. Porém sua mãe lhe disse: "Esse assunto com seu pai eu resolvo sozinha". E o pai lhe disse: "Esse assunto com sua mãe eu resolvo sozinho. Não precisamos de você para isso". Aquela senhora ficou muito desapontada, porque foi reduzida ao seu tamanho de criança.

Na noite seguinte, ela não conseguiu dormir. Aliás, ela sentia uma grande dificuldade para adormecer. Perguntou-me se eu podia ajudá-la. Respondi: "Quem não consegue dormir talvez esteja pensando que precisa vigiar". Contei-lhe então a história de Borchert sobre o menino de Berlim que, no fim da guerra, tomava conta de seu irmão morto, para que os ratos não o comessem. O menino estava esgotado, porque achava que devia ficar vigiando. Nisto, passou por ali um senhor simpático que lhe disse: "Mas os ratos dormem à noite". E a criança adormeceu.

Na noite seguinte, aquela senhora dormiu melhor.

Portanto, a ordem do amor entre filhos e pais estabelece, em terceiro lugar, que respeitemos o que pertence pessoalmente a nossos pais e o que eles podem e devem fazer sozinhos.

Receber e exigir

A ordem do amor entre pais e filhos envolve ainda um quarto elemento. Os pais são grandes, os filhos pequenos. Assim, o certo é que os pais dêem e os filhos recebam. Pelo fato de receber tanto, o filho sente a necessidade de pagar. Dificilmente suportamos quando recebemos algo sem dar algo em troca. Mas, em relação a nossos pais, nunca podemos compensar. Eles sempre nos dão muito mais do que podemos retribuir.

Alguns filhos querem escapar da pressão de retribuir e dos sentimentos de obrigação ou de culpa. Eles dizem então: "Prefiro nada receber, assim não sinto obrigação nem culpa". Esses filhos se fecham para seus pais e, nessa mesma medida, sentem-se pobres e vazios. Pertence à ordem do amor que os filhos digam: "Eu recebo tudo com amor". Assim, eles irradiam contentamento para os pais, e estes percebem a felicidade deles. Esta é uma forma de receber que é simultaneamente uma compensação, porque os pais se sentem respeitados por esse receber com amor. Eles dão, então, com um prazer ainda maior.

Quando, porém, os filhos dizem: "Vocês têm que me dar mais", o coração dos pais se fecha. Por causa da exigência do filho, eles não podem mais cumulá-lo de amor. Este é o efeito de tais reivindicações. Esse filho, por sua vez, mesmo quando recebe alguma coisa, não consegue tomar o que exigiu.

A equiparação

A verdadeira equiparação entre o dar e o tomar na família consiste em passar adiante o dom. Quando a criança diz: "Eu tomo tudo, e quando eu crescer, eu darei por minha vez", os pais ficam felizes. A criança, no seu dar, não olha para trás, mas para a frente. Os pais fizeram o mesmo. Eles receberam de seus pais e deram a seus filhos. Justamente pelo fato de terem recebido tanto, sentem-se pressionados a dar, e podem igualmente fazê-lo.

Até aqui, falei das ordens do amor entre filhos e pais.

O grupo familiar

Entretanto, nossa vinculação não se limita aos pais. Pertencemos também a um grupo familiar, a uma estirpe, um sistema maior. O grupo familiar se comporta como se fosse dirigido por uma instância comum e superior. Ele é comparável a um bando de pássaros em formação. De repente, todos mudam a direção do vôo, como se tivessem sido movidos por uma força superior comum.

No grupo familiar, essa instância superior atua quase como um comando (Gewissen) interior partilhado por todos, e que atua de modo amplamente inconsciente. Reconhecemos as ordens a que obedece pelos bons efeitos de sua observância e pelos maus efeitos de sua violação.

Quero citar, para começar, o círculo de pessoas que são abarcadas e dirigidas por esse comando interior (Gewissen), cuja amplitude podemos reconhecer por seus efeitos. Estão nele incluídos:

* Todos os filhos, inclusive os que morreram ou foram abortados;
* Os pais e todos os seus irmãos;
* Os avós;
* Eventualmente, algum bisavô ou até mesmo um antepassado ainda mais distante, principalmente se teve um destino mau.
* Incluem-se ainda pessoas sem relação de parentesco, a saber, aquelas de cuja morte ou infelicidade pessoas da família se beneficiaram, como são, por exemplo, antigos parceiros dos pais e dos avós.

O direito de pertencer

No interior de cada grupo familiar, vale a ordem básica, a lei fundamental: todas as pessoas do grupo familiar possuem o mesmo direito de pertencer. Em muitas famílias e grupo familiares, determinados membros são excluídos. Alguns dizem, por exemplo: "Esse tio não vale nada, ele não pertence a nós", ou então: "Dessa criança ilegítima nada queremos saber". Com isso, recusam a essas pessoas o direito de pertencer.

Existem também os que dizem: "Sou católico, você é evangélico. Como católico, tenho mais direito de pertencer que você". Ou inversamente: "Como protestante, tenho mais direito, porque minha fé é mais verdadeira. Você é menos crente do que eu, portanto tem menos direito de pertencer". Isto não é hoje tão freqüente como antigamente, mas ainda acontece.

Ocorre ainda, quando um filho morre prematuramente, que seus pais dão seu nome ao filho seguinte. Com isto, estão dizendo ao primeiro: "Você não pertence à família. Temos um substituto para você". Assim o filho morto não conserva nem mesmo o seu próprio nome. Com freqüência, não é mais contado nem mencionado. Assim lhe é negado e retirado o direito de pertencer.

O excesso de moral de alguns, que se sentem melhores e superiores a outros, na prática significa dizer-lhes: "Tenho mais direito de pertencer que você". Ou, quando alguém condena uma pessoa ou a considera má, praticamente está lhe dizendo: "Você tem menos direito de pertencer do que eu". "Bom" significa então: "Tenho mais direitos", e "mau" significa: "Você tem menos direitos".

Os excluídos são representados

Essa lei fundamental, que assegura a todos o mesmo direito de pertencer, não tolera nenhuma violação. Quando isso acontece, existe no sistema uma necessidade inconsciente de compensação, que faz com que os excluídos ou desprezados sejam mais tarde representados por algum outro membro da família, sem que essa pessoa tenha consciência do fato.

Quando, por exemplo, um homem casado se relaciona com outra mulher e diz à própria esposa: "Não quero mais saber de você", inventando falsas razõ es e cometendo injustiça contra ela, e depois se casa com a segunda mulher e tem filhos com ela, sua primeira mulher será representada por um desses filhos. Uma menina, por exemplo, combaterá o pai com o mesmo ódio da parceira rejeitada, sem que tenha a menor consciência dessa representação. Aqui atua uma força secreta de compensação, para que a injustiça feita à primeira pessoa seja vingada por uma segunda.

Muitos acontecimentos infelizes na família como, por exemplo, desvios de comportamento dos filhos, doenças, acidentes e suicídios acontecem pelo fato de que um filho inconscientemente representa um excluído e quer dar-lhe reconhecimento. Nisso se revela ainda uma outra propriedade da instância superior. Ela faz reinar justiça para com aqueles que vieram antes e injustiça para os que vêm depois.

A solução

A solução de um tal emaranhamento torna-se possível quando a ordem básica é restabelecida, isto é, quando os excluídos voltam a ser acolhidos e respeitados. Neste caso, por exemplo, a segunda mulher deveria dizer à primeira: "Eu tenho este homem às suas custas. Eu honro isto e reconheço que foi feita injustiça a você. Por favor, queira bem a mim e a meus filhos". Desta forma, a primeira mulher é respeitada. Nas constelações familiares, pode-se perceber então como se relaxa o rosto da primeira mulher, como ela se torna amigável pelo fato de ser respeitada. Com isso, é reconhecido o seu direito de pertencer.

A solução exige também que a menina, que imita essa mulher, lhe diga interiormente: "Eu pertenço apenas à minha mãe e ao meu pai. Aquilo que se passou entre vocês adultos não tem nada a ver comigo". Ela diz a seu pai: "Você é meu pai, e eu sou sua filha. Por favor, olhe-me como sua filha". Então o pai não precisa mais ver nela sua ex-mulher, não precisa mais defrontar-se com o ódio ou a tristeza que ela possa ter. Ou, se ele ainda a ama, não precisa ver a criança como sua amante, mas apenas como sua filha. Então a criança pode ser a filha, e o pai pode ser o pai.

A criança precisa também dizer ao pai: "Esta aqui é a minha mãe. Com sua primeira mulher não tenho nada a ver. Eu tomo esta como minha mãe. Esta é para mim a certa". E então ela precisa dizer à mãe: "Com a outra mulher eu nada tenho a ver". De outra forma, essa criança se tornará uma rival da mãe, e não poderá ser filha. Talvez a mãe veja nela inconscientemente a outra mulher, e então mãe e filha entram em conflito como se fossem duas amantes rivais. Mas quando a criança diz: "Você é minha mãe e eu sou sua filha, com a outra não tenho nada a ver. Eu tomo você como minha mãe", então a ordem é restabelecida.

Existem contudo emaranhamentos bem mais complicados. Quando, por exemplo, numa família, um filho morre prematuramente, os filhos sobreviventes carregam muitas vezes um sentimento de culpa pelo fato de estarem vivos, enquanto seu irmão está morto. Acreditam que, por estarem vivos, possuem uma vantagem sobre o irmão falecido. Então eles querem compensar isto, por exemplo, deixando-se ficar mal, adoecendo ou mesmo desejando morrer, sem que saibam por quê.

Aqui pertence à ordem do amor que eles digam interiormente ao irmão morto: "Você é meu irmão (minha irmã). Eu respeito você como meu irmão (minha irmã). Você tem um lugar em meu coração. Eu me curvo diante do seu destino, da forma como lhe aconteceu, e digo sim ao meu destino, da forma como me foi determinado". Então a criança morta é respeitada, e a outra pode permanecer viva sem sentimento de culpa.

A imagem mágica do mundo e suas conseqüências

Por trás da necessidade de compensação, que faz adoecer, atua uma fantasia mágica, a saber, que eu posso salvar uma outra pessoa de seu pesado destino, desde que eu tome também algo de pesado sobre mim. É o caso da criança que diz à mãe gravemente doente: "Antes eu adoeça do que você. Antes morra eu do que você". Ou ainda, quando a mãe quer abandonar a vida, um filho se suicida, para que a mãe possa ficar viva.

Um exemplo disto é a magreza compulsiva. O anoréxico vai se tornando cada vez menor, desaparece, por assim dizer, até a morte. Em sua alma, essa criança diz a seu pai ou a sua mãe: "Antes desapareça eu do que você". Aqui atua um amor profundo. Mas quando a criança morre, qual é o efeito desse amor? Ele é totalmente inútil.

Quando trabalho com uma pessoa com essa compulsão, faço que olhe nos olhos de seu pai ou de sua mãe e diga: "Antes desapareça eu do que você". Quando ela os encara nos olhos a ponto de realmente os ver, ela não consegue mais dizer essa frase, porque percebe que o pai ou a mãe não aceitará isto dela. É que o amor mágico desconhece o fato de que também a outra pessoa ama e que ela recusaria isto, independentemente da inutilidade de tal amor.

Quando a mãe morre no nascimento de uma criança, é muito difícil para essa criança tomar a sua vida. Ela precisaria encarar a mãe nos olhos e dizer: "Mamãe, mesmo por este alto custo eu tomo esta vida e faço algo de bom com ela, em sua memória. Você precisa saber que não foi em vão". Isto é amor, num nível mais elevado. Ele exige o abandono da fantasia mágica de poder interferir no destino de outra pessoa e mudá-lo. Ele exige a passagem de um amor que faz adoecer para um amor que cura.

A fantasia do amor mágico está associada a uma presunção, a um sentimento de poder e superioridade. A criança realmente acha que, através de sua doença e de sua morte, pode salvar da morte outra pessoa. Renunciar a essa idéia só é possível pela humildade.

Até aqui falei da ordem do amor na relação entre filhos e pais.

Homens e Mulheres

Quero também dizer mais alguma coisa sobre a ordem do amor na relação do casal. Este tema nos fala mais de perto. Muitos se envergonham disso, como se fosse algo que a gente deveria ocultar. Aquilo que diferencia os homens das mulheres, que realmente os diferencia, é escondido. Ou, pode-se dizer também, é protegido. Pois é o lugar onde cada um é mais vulnerável. É o lugar próprio da vergonha. Vergonha significa, neste contexto, que eu guardo alguma coisa, para que nada de mau aconteça. E é o lugar onde nos sentimos mais entregues.

Alguns falam depreciativamente do instinto sexual e esquecem que ele é a força real e mais profunda, que tudo mantém unido e dirige, que toma cada pessoa a seu serviço, sem que ela possa se defender. Pela pura razão, ninguém se casaria ou teria filhos. Só esse instinto consegue isso. É através dele que estamos em sintonia mais profunda com a alma do mundo. Esse instinto é o que existe de mais espiritual. Todo entendimento e toda consideração racional empalidecem diante da força que atua por detrás desse instinto.

A ordem do amor entre homem e mulher exige portanto, em primeiro lugar, que o homem admita que lhe falta a mulher, e que ele, por si só, jamais poderá alcançar o que uma mulher tem. E exige igualmente que a mulher admita que lhe falta o homem, e que ela, por si só, jamais poderá alcançar o que o homem tem. Então ambos se experimentam como incompletos e admitem isto.

Quando o homem admite que precisa da mulher e que só através dela se torna um homem, e quando a mulher admite que precisa do homem e só através dele se torna uma mulher, então essa carência os liga um ao outro, justamente pelo fato de a admitirem. Então o homem recebe o feminino como presente da mulher, e a mulher recebe o masculino como presente do homem.

Imaginem agora um homem que desenvolve em si o feminino e uma mulher que desenvolve em si o masculino, como muitos consideram ideal. Se esse homem quiser se ligar a essa mulher, qual será a profundidade dessa relação? No fundo, eles não precisam um do outro. Inversamente, quando o homem renuncia ao feminino e a mulher ao masculino, então eles precisam um do outro e isto os mantém juntos.

O vínculo

Quando o homem e a mulher se aceitam mutuamente como tais, a consumação de seu amor cria um vínculo. Esse vinculo é indissolúvel. Isto nada tem a ver com a doutrina moral da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio. A realização do amor cria uma ligação, independentemente do casamento e de qualquer rito externo.

A existência de uma tal ligação é percebida pelos seus efeitos. Por exemplo, o homem que se separa levianamente de uma parceira a quem estava vinculado dessa forma pela consumação do amor, via de regra não conseguirá conservar uma segunda parceira num outro relacionamento. Pois esta percebe o seu vínculo com a parceira anterior, e não ousa tomá-lo plenamente. Quando um homem abandona uma mulher e se casa de novo, talvez sua segunda mulher se considere melhor que a primeira e diga: "Agora eu o tenho para mim". Ela entretanto o perderá. Nesse próprio triunfo o perde, pois reconhece o vínculo desse homem com a sua primeira mulher.

Então ela não o assumirá completamente. Nas constelações familiares, pode-se perceber que uma segunda mulher se distancia um pouco do homem. Ela não ousa colocar-se perto dele, pelo fato de não ser sua primeira ligação, mas a segunda.

A profundidade de um tal vínculo pode ser avaliada pelo seu efeito. A separação do primeiro amor é a mais difícil de se conseguir. É a mais dolorosa. Quando uma segunda ligação se desfaz, a dor é menor. Numa terceira, é ainda menor.

Essa ligação não é porém sinônimo de amor. O amor pode ser pequeno e o vínculo profundo. Inversamente, o amor pode ser profundo e a ligação pequena. O vínculo se origina do ato sexual. Por isto, ele também nasce de um incesto ou de um estupro. Para que mais tarde uma nova ligação seja possível, é preciso que a primeira seja corretamente resolvida. Ela é resolvida quando é reconhecida e quando é honrado o respectivo parceiro. Quem amaldiçoa o primeiro vínculo impede uma ligação ulterior.

A ordem de precedência

O fruto do amor entre o homem e a mulher são os filhos. Também aqui é importante observar uma ordem do amor, uma ordem de precedência no amor. Ela se orienta pelo começo. Isto significa que o que vem antes tem, via de regra, precedência sobre o que vem depois. Numa família, existe primeiro o casal homem-mulher. Seu amor funda a família. Por isso, seu amor como homem e mulher tem precedência sobre tudo o que vem depois, portanto, sobre seu amor de pais por seus filhos. Muitas vezes acontece nas famílias que os filhos atraem sobre si toda a atenção. Então os pais não são antes de tudo um casal, mas pais. Com isto os filhos não se sentem bem.

Quando a relação do casal tem prioridade, o pai diz a seu filho: "Em você, eu respeito e amo também a sua mãe". E a mãe diz ao filho: "Em você, eu respeito e amo também o seu pai". E a mulher diz ao homem: "Em nossos filhos, eu respeito e amo a você". E o homem diz à mulher: "Em nossos filhos, eu respeito e amo a você". Então o amor dos pais é a continuação do amor do casal. Este tem a prioridade. Os filhos então se sentem muito bem.

Várias famílias são segundas e terceiras famílias, quando o homem e a mulher já eram casados anteriormente e trouxeram filhos do matrimônio anterior. Como é então a ordem de precedência?

Eles são primeiramente pai e mãe de seus próprios filhos, e só depois disso constituem um casal. Por conseguinte, seu amor como casal não pode continuar nos filhos, pois já foram pais anteriormente. Então, o novo parceiro deve reconhecer que o outro é, em primeiro lugar, pai ou mãe dos próprios filhos, e que seu maior amor e sua maior força fluem para eles e, neles, naturalmente, também para o parceiro anterior. Só então seu amor e sua força fluem para o novo parceiro. Quando ambos os parceiros reconhecem isto, seu amor pode ser bem sucedido. Quando, porém, um parceiro diz ao outro: "Eu tenho prioridade em seu amor, e só então vêm seus filhos", a relação fica em perigo. Essa situação não se mantém por longo tempo.

Se eles mais tarde têm filhos em comum, então são, em primeiro lugar, pai e mãe dos filhos do primeiro casamento; em segundo lugar, são um casal e, em terceiro lugar, são pais de seus filhos comuns. Esta seria a ordem, neste caso. Quando se sabe disto, pode-se resolver ou evitar conflitos em muitas famílias.

Falei até aqui sobre algumas ordens do amor na relação entre o homem e a mulher. Para terminar, contarei a vocês uma história sobre o amor. Ela é assim:

Dois modos de ser feliz

Antigamente, quando os deuses ainda pareciam bem próximos dos homens, viviam numa pequena cidade dois cantores que se chamavam Orfeu.

Um deles era o grande. Tinha inventado a cítara, um tipo primitivo de guitarra. Quando tocava o instrumento e cantava, toda a natureza ficava enfeitiçada em torno dele. Animais ferozes se deitavam mansamente a seus pés, árvores altas se inclinavam para ele: nada podia resistir a seus cantos. Pelo fato de ser tão grande, ele conquistou a mais bela mulher. E aí começou a descida.

Enquanto ele ainda festejava o casamento, morreu a bela Eurídice, e a taça cheia, que ele erguia nas mãos, se partiu. Contudo, para o grande Orfeu, a morte ainda não foi o fim. Com a ajuda de sua arte requintada, encontrou a entrada para o mundo subterrâneo, desceu ao reino das sombras, atravessou o rio do esquecimento, passou pelo cão dos infernos, chegou vivo diante do trono do deus da morte e o comoveu com seu canto.

A morte liberou Eurídice -- porém sob uma condição, e Orfeu estava tão feliz que não percebeu o que se escondia por trás desse favor. Orfeu pôs-se a caminho de volta, ouvindo atrás de si os passos da mulher amada. Passaram ilesos pelo cão de guarda do inferno, atravessaram o rio do esquecimento, começaram o caminho para a luz, que já viam de longe. Então Orfeu ouviu um grito - Eurídice tinha tropeçado - horrorizado, ele se voltou, viu ainda a sombra dela caindo na noite e ficou sozinho. Esmagado pela dor, ele cantou sua canção de despedida: "Ai de mim, eu a perdi, toda a minha felicidade se foi!"

Ele próprio voltou à luz. Entretanto, no reino dos mortos, passara a estranhar a vida. Quando mulheres ébrias quiseram levá-lo à festa do novo vinho, ele se recusou, e elas o despedaçaram vivo.

Tão grande foi sua desgraça, tão inútil foi sua arte. Entretanto, todo o mundo o conhece.

O outro Orfeu era o pequeno. Era apenas um cantor de rua, aparecia em pequenas festas, tocava para gente humilde, alegrava um pouco e curtia isso. Como não conseguia viver de sua arte, aprendeu um ofício comum, casou-se com uma mulher comum, teve filhos comuns, pecou eventualmente, foi feliz de modo comum, morreu velho e satisfeito da vida.

Entretanto, ninguém o conhece - exceto eu!

Bert Hellinger

Palestra em Kyoto

Palestra em Kyoto – As constelações familiares e a consciência coletiva

Bert Hellinger

Pronunciamentos de Bert Hellinger em Outubro de 2001 num workshop de Kyoto – Japão. (Bert Hellinger estava acompanhado por Harald Hohnen)

A consciência oculta
As diferenças culturais entre o ocidente e o oriente
A Consciência coletiva esquecida
A vinculação pelo sexo
A noite escura da alma
A atitude terapêutica

Eu quero dizer algo sobre este tipo de trabalho. É conhecido como constelação familiar. A constelação familiar é um método que visto de fora parece muito simples. Se um cliente tem um problema, é então solicitado a selecionar representantes para membros de sua família e colocá-los uns em relação aos outros. Tão logo isto é feito, os representantes sentem-se como as pessoas que estão representando, mesmo sem saber nada sobre elas. Isto é um fenômeno muito estranho. Se nós o tomamos seriamente, nós temos que dizer adeus a muitas de nossas noções sobre a alma humana.

Eu quero explicar agora algo sobre o que está por trás de importantes insights que vem à luz através deste método.

A consciência oculta

Durante um período de anos eu tenho visto que somos guiados por uma consciência coletiva oculta (inconsciente). Isto significa que os membros de uma família estão sob a influência de uma consciência que é comum a todos eles. Esta consciência é oculta, inconsciente. Eu tenho pensado muito sobre a origem de tal tipo de consciência. Eu imagino que no começo da raça humana, havia grupos pequenos de pessoas, eles viviam em grupos de 20-30 pessoas. Eles todos agiam de um certo modo. Eles TINHAM que agir do mesmo modo para sobreviver. Deste modo, os membros individuais deste grupo , todos eles, olhavam (zelavam) pelo benefício do grupo como um todo. Eles não poderiam manter desejos pessoais que fossem contra o benefício do grupo como um todo. E, de fato, neste grupo, cada membro era importante. Eles não podiam se dar ao luxo de perder um de seus membros. E ninguém podia deixar o grupo sem ficar em perigo de morrer rapidamente.

Assim, houve uma experiência básica na qual todos pertenciam juntos e um dependia do outro. Eles não precisavam pensar sobre o que era certo para eles. Havia uma força oculta que os movia nesta direção. Se eles não devotassem toda a energia para o benefício do grupo, se sentiam mal, se sentiam culpados. Este sentimento os motivava para mudar seu comportamento de modo que eles pudessem novamente devotar toda sua energia para o benefício do grupo como um todo.

As diferenças culturais entre o ocidente e o oriente

Agora compare isto a como nós nos comportamos na cultura ocidental – o povo japonês é também afetado de certa forma por esta cultura – onde um indivíduo pode dizer: “ Eu venho primeiro, meu desenvolvimento pessoal vem primeiro”. Como a Constituição americana coloca : “ Cada pessoa tem o direito de ser feliz, todos tem o direito de serem pessoalmente felizes”. Vocês vêem a diferença? Neste grupo original, todos pertenciam igualmente e esta alma comum que os unia zelava para que nenhum dos membros fosse perdido. E ela zelava para que todos os membros estivesse servindo ao grupo como um todo.

Dentro deste grupo havia um outro tipo de lei ou ordem operando. Esta lei dava a cada membro seu próprio lugar dentro do grupo. Havia uma hierarquia dentro deste grupo que se opõe à noção democrática que nós temos dos grupos, usualmente. Neste grupo aqueles que chegaram primeiro tinham o mais alto nível (hierárquico) e aqueles que vieram depois o nível mais baixo. Assim a hierarquia dava a cada membro um lugar de acordo com o tempo que ele ou ela entrou no grupo. Deste modo não havia conflito acerca do lugar próprio de alguém. Todos sabiam seu lugar certo. Mas aqueles que tinham vindo depois progrediam com o passar do tempo atingiam uma posição superior na hierarquia. A criança caçula, por exemplo, tinha o lugar mais baixo, mas quando ela crescesse e se tornasse velha, alcançaria um lugar mais alto afinal. Assim as posições não eram fixas, elas tinham um certo desenvolvimento. Por meio destas duas leis, estes grupos poderiam sobreviver enquanto estivessem entre si.

Mas o que aconteceu quando eles encontraram outros grupos? Subitamente eles tinha de diferenciar entre eles e os outros grupos. Então eles tiveram a noção: “Nós somos melhores e os outros não são tão bons.” Assim, enquanto antes havia uma igualdade entre os membros e onde tais divisões ou diferenciações não tinham lugar, tais diferenciações foram agora introduzidas.

Após algum tempo, os membros de um mesmo grupo começaram a fazer tais diferenciações. Eles disseram, “ Eu sou mais importante que outro membro, eu tenho um maior direito de pertencer a este grupo do que ele.” Então eles seguiram uma outra consciência que surgia, uma consciência pessoal em oposição àquela consciência coletiva que dirigia o grupo antes. De fato, este é um importante passo para a frente no desenvolvimento humano, sem dúvida. O indivíduo aprendeu a ver a diferença entre si e os outros. Então começou entre os membros do grupo um conflito ou uma competição pelo lugar mais alto na hierarquia. Este desenvolvimento alcançou o seu pico quando as pessoas vieram a entender sua consciência pessoal como a voz de DEUS em suas almas. Assim, quando elas fizeram algo contra o grupo, elas fizeram isto de boa consciência porque elas diziam que sua ação pessoal tinha a aprovação divina.

Agora, porque eu disse tudo isto aqui? O que isto tem a ver com as constelações familiares?

A Consciência coletiva esquecida

Por causa do correr do tempo, as regras da consciência coletiva foram esquecidas. Elas foram negadas, na verdade suprimidas. Mas a consciência coletiva, embora inconsciente, ainda está atuante. E porque ela está ainda atuante? Ela vai contra aquilo que as pessoas querem , desejam ou acham que seja certo. Deste modo, quando alguém age de boa consciência e pensa que aquilo que quer é bom, tais ações freqüentemente resultam em falha.

E o que é pior, agindo contra as regras da consciência coletiva , as pessoas podem vir a ficar doentes ou ter acidentes sérios ou se tornarem criminosas ou propensas ao suicídio. Como isto atua, vem à luz através das constelações familiares. Deste modo nós podemos entender as constelações familiares somente se nós sabemos algo acerca deste “pano de fundo”.

De fato, as constelações familiares não apenas trazem à luz estes emaranhamentos, elas também mostram um modo de como resolvê-los. E este é o motivo pelo qual elas tem seu efeito curativo e reconciliador.

Isto foi uma introdução difícil e longa e eu espero agora que vocês estejam prontos para que trabalhemos.

A vinculação pelo sexo

Eu devo dizer agora algo sobre este vínculo. Se há um intercurso sexual entre um casal adulto e ele é sem reservas, uma ligação é estabelecida entre ambos. Eu uso o termo “sem reservas” para incluir muitas coisas e não desejo ser muito específico. Esta ligação dura uma vida e após ela se estabelecer o casal não pode mais se comportar como se não tivesse acontecido nada. A profundidade do vínculo pode ser vista quando há uma separação. Após tal vínculo eles não podem se separar facilmente. Eles só podem se separar com dor e sentimentos de culpa. Se eles se separam e encontram outro(a) parceiro(a) com o(a) qual tem um intercurso sexual também um novo vínculo se estabelece. Mas este novo vínculo é menos intenso que o primeiro. Quando eles se separam a dor e os sentimentos de culpa são menores que antes. Após o terceiro é ainda menor. E assim prossegue. Após algum tempo eles são incapazes de estabelecer uma parceria estável e permanecerão solteiros. Isto pode servir a um propósito especial em relação à evolução talvez. De minha parte não há nenhum julgamento a respeito disto. Com relação ao incesto, abuso sexual e estupro, nós temos que saber que um vínculo também é estabelecido. Mas eu volto ainda para a relação de casal. Se houve um relacionamento e ele foi rompido e os parceiros tomam nova relação com pessoas diferentes, o parceiro anterior será representado na próxima relação por uma criança, a menos que a separação tenha acontecido com amor. Então a segunda relação pode ter sucesso. O mesmo se aplica ao incesto, estupro e caso de abuso sexual. A menos que o vínculo criado seja reconhecido e haja uma separação com respeito e amor os relacionamentos posteriores serão difíceis.

Com relação ao estupro, isto pode parecer muito estranho. Mas as constelações familiares mostram uma imagem diferente (da habitual). Houve uma vez uma mulher que colocou sua família. Ela havia me dito que tinha dificuldades sexuais. Eu disse que não desejava lidar com isto em público. Mas quando ela posicionou a família eu perguntei: “Houve algo especial?” Ela me disse então: “Eu fui estuprada 6 vezes.” Deste modo eu selecionei seis homens e os coloquei lá, lado a lado. Então a representante daquela mulher se posicionou em frente de cada um deles e se curvou, reverenciando-os, uns com mais profundidade que os outros. No final, ela se colocou ao lado do último. E disse então: “Este é o meu lugar”. Muito estranho! Isto vai contra o nosso pensamento moral. Mas as constelações familiares mostram um quadro diferente.

Agora, quanto ao incesto. Se vocês são confrontados com casos de incesto, uma dinâmica muito comum é que a esposa se retira do marido e lhe recusa uma relação sexual. Então, como um tipo de compensação, uma filha toma seu lugar.

Isto é um movimento inconsciente, não é consciente. Mas você vê, com o incesto há dois agressores, um oculto e outro às claras. Não se pode resolver isto a menos que o agressor oculto venha à luz. Há então sentenças muito estranhas que vêm à luz. A filha pode dizer a sua mãe “Eu faço isto por você.” E ela pode dizer ao pai “Eu faço isso pela mamãe”. Qual é o efeito dessas sentenças? O incesto não pode mais continuar. Se você quer pará-lo, este é o melhor modo, sem qualquer acusação.

Se você levar o agressor à justiça, então a vítima expiará o que for feito ao agressor. Eu dou um exemplo. Em um grupo, um assistente social relatou um caso de abuso e incesto e ele disse que levaria os agressores à corte. Eu o adverti que isto poderia ser perigoso para a menina. Mas ele se sentiu no direito de levá-los à justiça. Então, depois eu o encontrei e perguntei a ele como estava indo a menina. Ele me disse: “Ela sempre está querendo pular pela janela”. Este é o resultado da ação justiceira dele.

Para o cliente: E isto também é importante para você.

A noite escura da alma

Eu quero dizer algo sobre a noite escura da alma. Este é um conceito da tradição mística da Europa. Mas ele é muito próximo do pensamento asiático também. Ele significa que eu me refreio de investigar , eu me refreio de qualquer curiosidade. E qual é o efeito disto? Paz para todos os envolvidos. Eu fico em paz. Eu não estou sobrecarregado pelos problemas alheios. E os demais não são mais perturbados por mim. Eu não interfiro de forma alguma nos movimentos de sua alma. Nós ambos podemos então respeitar-nos mutuamente. Se eu agora me entregasse À curiosidade, eu perderia o respeito do outro. E ele sentiria que eu não o respeito. Assim, este é um bom procedimento. Na verdade é um não-procedimento. Eu não faço nada. E ainda assim, pelo não fazer nada, eu faço muito.

A atitude terapêutica

Eu quero dizer algo sobre a atitude terapêutica. Ontem, eu trabalhei com ela e eu sabia das conseqüências, é claro.

Mas eu não interfiro. Eu só parei e esqueci dela. Eu não cuidei mais, não no sentido de que eu não me preocupei mais . Ontem eu trabalhei com ela ( e apontou outra mulher), eu parei e esqueci-a.Eu não fiquei preocupado, porque eu confio – alguma coisa acontecerá. Há forças maiores operando aqui. Nesta manhã esta outra mulher veio aqui e estava pronta para mais um pouco de trabalho. Eu trabalhei com ela e não achei uma solução – superficialmente nós não achamos uma solução – e eu parei. Após um tempo ela parecia feliz. Eu não sabia porque, eu não perguntei também. Para mim aquilo estava terminado. Não é mais meu assunto e não é mais da minha conta.

Agora ela veio por si mesma, porque a interrupção de ontem liberou algo em sua alma. Ela veio aqui e eu confrontei-a com suas conseqüências. Quantos de vocês ficaram chocados com o que eu disse a ela? Aquilo foi chocante. Mas foi verdade. É a verdade e não se pode brincar com ela. Aquilo é o que acontece se alguém deseja a morte de sua mãe.

Então eu tentei algo mais e não achei solução. Eu estava preparado para parar sem fazer mais nada. Eu não me preocupei. Então Harald me apontou algo. OK, havia uma outra oportunidade. Eu tomei-a e nós achamos uma solução. Agora, quem achou a solução? A grande alma achou a solução. A grande alma me dirigiu e a ele, a ela e ao grupo como um todo.

Estas mulheres aqui na constelação , elas foram boas? Elas foram inteligentes? Elas foram competentes? Não , elas foram guiadas por algo que veio de muito além delas mesmas. Elas apenas e permitiram serem movidas. Isto é o porque de nós termos achado uma solução. Mas não houveram bons terapeutas aqui, nem mesmo Harald foi um bom terapeuta, nem eu fui um bom terapeuta. Nós estivemos em sintonia com algo maior. E esta é nossa grandeza. Você vê quanta confiança é exigida para trabalhar desta forma? Quão cuidados nós temos que ser todo o tempo para que nada interfira (como nossas idéias ou intenções) neste trabalho?

Se você tem esta atitude sem nenhum medo e sem nenhuma intenção pessoal e só se permite ser guiado por algo maior, então você pode fazer este trabalho. Porque não é mais você , é algo além de você e de mim.

Tradução do inglês para o português com permissão expressa de Bert Hellinger por Décio Fábio de Oliveira Júnior.

domingo, 11 de março de 2012

Estrutura Oral

Cria-se o caráter oral quando o desenvolvimento normal é interrompido na fase oral do crescimento. A causa disso é o abandono. Na infância, a pessoa perdeu a mãe, pela morte, pela doença ou pelo afastamento. A mãe deu-se para filho, mas não se deu o suficiente. Muitas vezes ela fingiu dar-se – ou deu-se a despeito de si mesma. A criança compensou essa perda tornando-se independente demasiado cedo, muitas vezes falando e andando muito precocemente. Destarte, sente-se confusa no que respeita à receptividade e receia pedir o que realmente necessita porque, bem no fundo de si mesma, tem a certeza de não lhe será dado. Seus sentimentos em relação à necessidade de que alguém tome conta dela redundam em dependência, tendência para apegar-se, agarramento e redução da agressividade. Ela compensa tudo isso com um comportamento independente, que desmorona debaixo de pressão. Sua receptividade converte-se, então em passividade rancorosa, e a agressão se transforma em cobiça.
A pessoa com estrutura oral, basicamente destituída, sente-se vazia e oca e não quer assumir responsabilidade. O corpo, pouco desenvolvido, ostenta músculos longos, finos, flácidos e cai de fraqueza. A pessoa não parece adulta e amadurecida, tem o peito frio e deprimido, a respiração pouco profunda, e seus olhos sugam a energia de quem estiver perto dela. Psicodinamicamente, sua personalidade se agarra e aferra a outros, com medo de ser abandonada. Incapaz de ficar sozinha experimenta uma necessidade exagerada de calor e apoio alheios. Tenta consegui-lo de fora, a fim de compensar a tremenda sensação de vazio interior. Abafa seus sentimentos intensos de anseio e agressão. A fúria causada pelo abandono é contida. Utiliza a sexualidade para obter intimidade e contato.
A pessoa oral experimentou muitas decepções na vida, muitas rejeições nas tentativas de agarrar alguma coisa. Por essa maneira, torna-se amarga e acha que nada do que consegue é suficiente. Não pode ser fatisfeita porque tenta satisfazer um anseio interior, que ela mesma nega ao tentar compensa-lo com outra coisa qualquer.
No nível da personalidade, exige que a alimentem e satisfaçam. Na interação com os outros, falará por meio de perguntas indiretas, que evocarão proteção da outra pessoa. Mas isso não a satisfaz, porque ela é adulta e não criança.
Ao iniciar a terapia, queixar-se-á de passividade e fadiga. No trabalho terapêutico, o problema consistirá em encontrar alimentação em sua vida. Mas para satisfazer às suas necessidades, acredita que precisará arriscar o abandono de outra pessoa ou simulação do abandono. Desse modo, sua intenção negativa será: “farei que você me dê isso” ou “não precisarei disso”. O que por seu turno, gerará o dilema; “Se eu pedir, não será amor; se eu não pedir, não conseguirei”. Para resolver o problema, ela terá de descobrir e confessar suas necessidades e aprender a viver a vida de maneira que suas necessidades sejam satisfeitas. Ela precisa aprender a manter-se de pé.